Revista Portuguesa de Investigação Comportamental e Social · 2023 · Vol. 9(2): 1–16
Portuguese Journal of Behavioral and Social Research · e-ISSN 2183-4938
Departamento de Investigação & Desenvolvimento · Instituto Superior Miguel Torga

Artigo de Revisão

Depressão e hipotireoidismo: Uma revisão sistemáticaDepression and hypothyroidism: A systematic review

Eduarda Silva Souza 1  ·  Maria Cristina Mazzaia 1,2  ·  Rosangela Soares Chriguer 1

1 Universidade Federal de São Paulo, Santos, Departamento de Biociência (UNIFESP), Brasil

2 Universidade Federal de São Paulo, Santos, Departamento de Enfermagem Clínica e Cirúrgica (UNIFESP), Brasil

Artigo escrito em português do Brasil.

Recebido: 05/10/2023  ·  Revisto: 21/11/2023  ·  Aceite: 29/11/2023

DOI: https://doi.org/10.31211/rpics.2023.9.2.314

Resumo

Contexto e Objetivo: Diante da prevalência global de transtornos depressivos e da associação potencial com condições neuroendócrinas como o hipotireoidismo, este estudo objetivou explorar a relação entre hipotireoidismo e depressão ou sintomas depressivos. Métodos: Utilizando as bases de dados PubMed, Embase e CAPES, seguindo a metodologia PRISMA, foram selecionados estudos publicados entre 2018 e 2022. Os critérios de inclusão abrangeram artigos em inglês, espanhol ou português, usando métodos diagnósticos variados, incluindo exames laboratoriais e entrevistas clínicas ou escalas psicológicas. Excluíram-se revisões, estudos em animais, entre outros tipos de publicações não primárias. A qualidade dos estudos foi avaliada pela Newcastle-Ottawa Scale. Resultados: Dos 14 artigos selecionados, emergiu uma associação significativa entre hipotireoidismo e depressão, particularmente em mulheres, incluindo aquelas em terapia de reposição hormonal. Todavia, os dados sobre a relação entre hipotireoidismo subclínico e depressão foram conflitantes. Adicionalmente, o hipotireoidismo como comorbidade no transtorno depressivo maior pode contribuir para desfechos clínicos graves. Conclusões: Esses resultados sugerem uma possível associação entre o hipotireoidismo e a depressão. Este achado realça a importância de avaliar a função tireoidiana em pacientes depressivos, especialmente mulheres, para um diagnóstico e tratamento eficazes, alinhados à prática clínica baseada em evidências.

Palavras-chave: Depressão; Hipotireoidismo; Transtorno Depressivo Maior; Transtornos neuroendócrinos; Revisão sistemática.

Abstract

Background and Objective: Given the global prevalence of depressive disorders and their potential association with neuroendocrine conditions like hypothyroidism, this study aimed to explore the relationship between hypothyroidism and depression or depressive symptoms. Methods: Using databases such as PubMed, Embase, and CAPES, and following the PRISMA methodology, studies published between 2018 and 2022 were selected. The inclusion criteria encompassed articles in English, Spanish, or Portuguese, using various diagnostic methods, including laboratory tests and clinical interviews or psychological scales. Reviews, animal studies, and other types of non-primary publications were excluded. The quality of the studies was assessed using the Newcastle-Ottawa Scale. Results: Among the 14 selected articles, a significant association between hypothyroidism and depression emerged, particularly in women, including those undergoing hormone replacement therapy. However, data on the relationship between subclinical hypothyroidism and depression were conflicting. Additionally, hypothyroidism as a comorbidity in major depressive disorder may contribute to severe clinical outcomes. Conclusions: These results suggest a possible association between hypothyroidism and depression. This finding underscores the importance of evaluating thyroid function in depressed patients, especially women, for effective diagnosis and treatment, aligned with evidence-based clinical practice.

Keywords: Depression; Hypothyroidism; Major Depressive Disorder; Neuroendocrine Disorders; Systematic review.

Introdução

Os transtornos depressivos representam um grupo de condições psiquiátricas que afetam o humor, repercutindo negativamente na qualidade de vida, na produtividade no trabalho, nos custos econômicos e na saúde pública (Beck et al., 2011; Greenberg et al., 2021). O transtorno depressivo maior (TDM), a forma mais prevalente, afeta aproximadamente 4,4% da população mundial. Somado à distimia, um tipo mais brando e crônico de depressão, mais de 300 milhões de pessoas são afetadas globalmente (World Health Organization [WHO], 2017).

De acordo com o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, Quinta Edição (DSM-5, American Psychiatric Association [APA], 2014), o diagnóstico de TDM requer a presença mínima de cinco sintomas específicos durante um período de pelo menos duas semanas. Estes sintomas incluem humor deprimido, perda de interesse ou prazer, alterações significativas no peso, insônia ou hipersonia, agitação ou retardo psicomotor, fadiga ou perda de energia quase todos os dias, sentimentos excessivos de inutilidade ou culpa, dificuldades de concentração e pensamentos recorrentes sobre morte ou suicídio. Quando os sintomas têm uma etiologia clara identificada em exames físicos ou laboratoriais, o TDM pode ser classificado como uma manifestação fisiopatológica de outra condição médica.

O hipotireoidismo, destacando-se entre as condições neuroendócrinas associadas à depressão (APA, 2014), é caracterizada pelo hipofuncionamento da glândula tireoide. Este hipofuncionamento resulta na insuficiência na concentração ou na ação da fração ligada aos hormônios tiroxina (T4 livre) e triiodotironina (T3 livre) junto com aumento na concentração do hormônio tireoestimulante (TSH) (Taylor et al., 2018). O hipotireoidismo primário ocorre quando há uma baixa atividade da glândula tireoide, sendo responsável por 90% dos casos. Já o hipotireoidismo secundário decorre da insuficiência na secreção de TSH, enquanto o terciário resulta da insuficiência na secreção hipotalâmica do hormônio liberador de tireotrofina (TRH). O hipotireoidismo subclínico, identificado principalmente por exames bioquímicos que revelam aumento na concentração de TSH permanecendo os níveis de T3 livre e T4 livre normais, é caracterizado pela ausência de sinais ou sintomas clínicos em indivíduos afetados pela condição, tendo uma prevalência que varia entre 3% e 12% (Kim et al., 2017).

Evidências sugerem que os hormônios tireoidianos podem desempenhar um papel importante nas funções neuropsicológicas, podendo influenciar o desenvolvimento de quadros depressivos (Hage & Azar, 2012). Além disso, alguns dos sintomas do hipotireoidismo subclínico, como fadiga, dificuldade de memorização e pensamento lento (Garber et al., 2012; Kim et al., 2017; Wildisen et al., 2020), podem ser facilmente confundidos com sintomas dos transtornos depressivos, dificultando a tomada de decisão diagnóstica na prática clínica.

Este estudo teve como objetivo analisar a relação potencial entre o hipotireoidismo e a depressão, visando aprimorar o diagnóstico e o tratamento de indivíduos afetados por essas condições. Pretende-se que este trabalho sensibilize os profissionais de saúde para a importância do diagnóstico diferencial entre hipotireoidismo e transtornos depressivos, e para a possível interconexão entre essas duas condições. Além disso, o estudo visa identificar lacunas na literatura, que orientem futuras pesquisas na área. Para atingir estes objetivos, foi realizada uma revisão sistemática da literatura dos últimos cinco anos, focando na incidência de sintomas depressivos em pacientes com hipotireoidismo e na presença de desregulação hormonal tireoidiana em pacientes diagnosticados com depressão.

Método

Design do Estudo

Esta revisão sistemática seguiu as recomendações da lista de verificação Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses (PRISMA; Selçuk, 2019). A revisão foi conduzida pelas três autoras deste estudo, seguindo as seguintes etapas: inicialmente, as perguntas de pesquisa foram delineadas; em seguida, definiram-se os critérios de inclusão e exclusão de estudos; prosseguiu-se com a elaboração da estratégia de busca nas bases de dados relevantes; posteriormente, ocorreu a avaliação da qualidade metodológica dos estudos selecionados; e, finalmente, realizou-se a síntese das pesquisas selecionadas e análise dos dados obtidos.

Perguntas de Pesquisa

Este estudo foi guiado por duas perguntas de pesquisa, que visaram explorar as interações entre condições neuroendócrinas e transtornos depressivos. A primeira pergunta foi “Existem alterações nos níveis hormonais da tireoide em casos de depressão?” Essa questão buscou entender se há uma correlação direta entre desequilíbrios hormonais tireoidianos e a incidência ou severidade da depressão. A segunda pergunta foi “Sintomas depressivos estão presentes em indivíduos com hipotireoidismo?” Esta investigou a prevalência e características dos sintomas depressivos em pacientes diagnosticados com hipotireoidismo, buscando identificar padrões ou tendências comuns que possam informar práticas clínicas mais eficazes.

Estratégia de Busca e Critério de Seleção

A pesquisa de artigos foi realizada por duas das autoras (E.S.S., R.S.C.) recorrendo às bases de dados PubMed, Embase e CAPES. O período abrangido para a busca estendeu-se de 2018 até ao momento da busca, em outubro de 2022, com foco em publicações nos idiomas inglês, espanhol ou português. As estratégias de busca envolveram combinações dos termos “Hypothyroidism” (Hipotireoidismo), “Depression” (Depressão), “Major depressive disorder” (Transtorno depressivo maior) e “Depressive symptoms” (Sintomas depressivos), utilizando os conectivos lógicos “AND” e/ou “OR” para refinar os resultados. Estes termos foram selecionados com base nos Descritores em Ciência da Saúde (DeCS), garantindo uma abordagem abrangente e focada. O processo detalhado de busca é ilustrado na Figura 1.

Figura 1. Estratégia de Busca Avançada nas Bases de Dados

Critérios de Elegibilidade

Os critérios de elegibilidade para a inclusão de estudos na análise foram definidos por duas das autoras (E.S.S., R.S.C.). As publicações qualificadas deveriam atender aos seguintes critérios: serem indexadas na base de dados selecionada; estarem escritas em inglês, espanhol ou português; terem sido publicadas entre 2018 e 2022, para garantir a inclusão das evidências mais recentes; e para os casos de hipotireoidismo, o diagnóstico deveria ser confirmado por exames laboratoriais ou estar baseado na Classificação Internacional de Doenças (CID). Para a depressão, as publicações deveriam utilizar escalas e testes psicológicos reconhecidos ou basear o diagnóstico clínico no DSM ou no CID. Foram excluídos da análise os seguintes tipos de documentos: revisões, estudos em animais, artigos duplicados, teses, cartilhas, dissertações, monografias, resumos, livros, cartas, publicações em anais de congressos, editoriais e diagnósticos de hipotireoidismo ou depressão baseados exclusivamente em autodeclaração.

Seleção dos Artigos

A seleção inicial dos artigos foi realizada de forma independente por duas autoras (E.S.S. e R.S.C.), que analisaram títulos, resumos e palavras-chave para identificar os estudos potencialmente relevantes. Posteriormente, ambas procederam à leitura integral dos artigos pré-selecionados. Os desacordos nesta fase foram resolvidos com a intervenção de uma terceira autora (M.C.M.), assegurando a imparcialidade e a validade do processo de seleção.

Avaliação da Qualidade Metodológica

Para avaliar a qualidade metodológica e o risco de viés dos estudos já incluídos, aplicou-se a Newcastle-Ottawa Scale (NOS, Wells et al., 2014). Esta ferramenta é amplamente utilizada para avaliar estudos observacionais em três domínios principais: seleção dos participantes, comparabilidade entre os grupos e aferição do desfecho de interesse (Bitencourt et al., 2021). A escala original foi utilizada para estudos de coorte, caso-controle e ensaios clínicos randomizados, enquanto uma versão adaptada da NOS foi usada para avaliar estudos transversais (Herzog et al., 2013). Na NOS, a pontuação máxima de cada dimensão possível varia de acordo com o desenho do estudo, mas é fixada em um total de 9 pontos para todos os desenhos. Pontuações superiores a 7 indicam baixo risco de viés e alta evidência, enquanto pontuações inferiores a 7 indicam alto risco de viés e evidência limitada. Os critérios foram verificados por duas das autoras (E.S.S. e R.S.C.) através da leitura e identificação da presença ou ausência dos aspectos avaliados pela NOS. Quaisquer desacordos foram resolvidos por outra das autoras (M.C.M).

Coleta de Dados

A síntese descritiva dos dados foi feita por duas pesquisadoras (E.S.S. e R.S.C.) que compilaram as informações em um quadro estruturado na plataforma Google Forms, posteriormente exportado para Google Docs. As características essenciais extraídas de cada estudo incluíram: nome do primeiro autor, ano de publicação, local do estudo, design do estudo, sexo e idade dos participantes, tamanho da amostra, dosagens hormonais avaliadas, instrumentos de avaliação da depressão e principais desfechos. Desacordos no preenchimento do quadro foram resolvidos através da análise e contribuição de uma terceira autora (R.S.C.).

Resultados

Resultado da Pesquisa

No processo inicial de busca nas bases de dados eletrônicas selecionadas, foram encontrados 464 artigos: 306 no PubMed, 100 no Embase e 58 no CAPES. Primeiramente, excluíram-se os artigos de revisão. Posteriormente, procedeu-se à exclusão de estudos com base na análise de títulos, resumos e conteúdo integral. Critérios de exclusão específicos incluíram estudos que não abordaram a prevalência de sintomas depressivos em pacientes com hipotireoidismo ou a presença de desregulação hormonal tireoidiana em indivíduos diagnosticados com depressão. Ao final deste processo seletivo, 14 artigos, publicados entre 2018 e 2022, foram identificados como relevantes e incluídos nesta revisão. O detalhamento do processo de seleção dos artigos está ilustrado no fluxograma PRISMA, apresentado na Figura 2.

Figura 2. Fluxograma da Seleção de Artigos sobre Hipotireoidismo e Depressão

Fluxograma da seleção de artigos sobre hipotireoidismo e depressão
Nota. Adaptado de Page et al. (2021).

Resultado da Seleção

Na busca inicial realizada nas bases de dados eletrônicas, foram identificados 464 estudos. Destes, 94 eram revisões sistemáticas ou meta-análises e, portanto, foram excluídos desta revisão. Os estudos selecionados para análise incluíram pesquisas transversais, estudos de coorte, ensaios clínicos e estudos caso-controle, focando em amostras com hipotireoidismo ou transtornos depressivos. Após a avaliação de todos os critérios de elegibilidade, 14 artigos foram selecionados para inclusão nesta revisão, conforme ilustrado no fluxograma PRISMA na Figura 2. Dentre os estudos escolhidos, nove eram de desenho transversal, dois eram coortes, dois casos-controle e um ensaio clínico randomizado, totalizando 430.692 participantes. Todos os estudos selecionados incluíram participantes de ambos os sexos e foram conduzidos em sete países, com destaque para a China e a Coreia do Sul, cada um com quatro estudos. Os resultados e características principais dos estudos selecionados estão sumarizados na Tabela 1.

Tabela 1

Características dos Estudos Primários

Autores (Data)
Local
Tipo de estudo Amostra
(N/idade)
Dosagem hormonal
/diagnóstico
Avaliação da
depressão
Desfecho
Airaksinen et al. (2021)
Finlândia
Transversal7.683
≥ 18
TSH, FT4/ HSCPHQ-9Nenhuma associação entre hipotireoidismo subclínico e risco geral de depressão ou qualquer um dos sintomas individuais de depressão foi encontrado.
Choi et al. (2019)
Coreia do Sul
Coorte187.176
≥ 18
Diagnóstico Prévio/ HipotireoidismoDiagnóstico clínicoA incidência de TDM aumenta no período imediato após a remoção da glândula, e se mantém alta de um a dois anos.
Fugger et al. (2018)
Áustria
Transversal1.410
50,20 ± 14,03
Diagnóstico Prévio/ HipotireoidismoMINIA anormalidade tireoidiana, especialmente o hipotireoidismo, está ligado à gravidade da depressão e associado a características psicopatológicas do quadro, destacando sintomas psicóticos.
Gorkhali et al. (2020)
Nepal
Transversal129
38,09 ± 12,68
Diagnóstico Prévio/ HipotireoidismoHAM-A, HAM-DIdentificou maior prevalência de ansiedade e depressão em pacientes com disfunções na função tireoidiana.
Gunes et al. (2020)
Turquia
ECR88
23 – 45
Diagnóstico Prévio/ HipotireoidismoBAI, BDIAs pontuações do HAM-A e HAM-D foram maiores em pacientes com hipotireoidismo que atingiram o estado de eutireoidismo com a reposição hormonal, comparado ao grupo controle saudável.
Hong et al. (2018)
Coreia do Sul
Transversal7.550
44 (19–76)
TSH, FT4/ HSCPHQ-9hipotireoidismo subclínico não foi associado à presença de depressão clinicamente relevante ou significativa.
Kim et al. (2018)
Coreia do Sul
Coorte220.545
39,9 ± 66,7
FT3, FT4, TSH/ HSCCES-DNenhuma associação foi encontrada entre o HSC e aumento do risco de incidência de transtornos depressivos.
Kafle et al. (2020)
Nepal
Transversal263
38,29 ± 14,24
T3 livre, T4 livre e TSH/ Hipotireoidismo, HSC, Hipotireoidismo secundárioHAM-DA prevalência de disfunções da tireoide é alta em pacientes com depressão.
Kamyshna et al. (2022)
Ucrânia
Caso controle153
≥ 18
FT4, TSH, anti-TPO, anti-TG/ HipotireoidismoHAM-DPacientes com hipotireoidismo autoimune apresentam um aumento de chance de desenvolver sintomas de depressão ou serem diagnosticados com transtornos depressivos.
Kim et al. (2020)
Coreia do Sul
Transversal370
39,9 ± 0,73
TSH, FT4 e TPOAb/ HSCPHQ-9A prevalência de HSC foi significativamente maior em indivíduos
com depressão do que em indivíduos sem depressão.
Shen et al. (2019)
China
Transversal1.706
34,9 ± 12,4
TSH, FT3, FT4/ HSCHAM-D, HAM-A
PANSS
Tentativas de suicídio e sintomas psicóticos podem estar associados ao HSC grave e a gravidade da ansiedade, depressão e sintomas psicóticos estão relacionados a níveis elevados de TSH.
Yuan et al. (2020)
China
Caso controle164
18 – 50
T3, T4, TSH/
Hipotireoidismo e HSC
HAM-A, HAM-DAs pontuações do HAM-D em pacientes com hipotireoidismo foram maiores do que no grupo controle saudável e em outros tipos de disfunção da tireoide.
Zhao et al. (2021)
China
Transversal1.787
≥ 18
T3, T4, FT3, FT4, e TSH/
HSC
HAM-A, HAM-DA prevalência de SCH foi duas vezes maior em mulheres hospitalizadas com sintomas depressivos do que em homens.
Zhou et al. (2021)
China
Transversal1.535
16 – 65
FT3, FT4, TSH/ Hipotireoidismo e HSCDiagnóstico clínicoPacientes com TDM exibiram maior incidência de anormalidade da função da tireoide. Os níveis de TSH, FT3 e FT4 foram mais baixos em pacientes com TDM comparado ao grupo saudável.

Nota. BAI = Beck Anxiety Inventory; BDI = Beck Depression Inventory; CES-D = Center for Epidemiologic Studies-Depression; PHQ-9 = Patient Health Questionnaire; HAM-A = Hamilton Anxiety Rating Scale; HAM-D = Hamilton Depression Rating Scale; HSC = Hipotireoidismo Subclínico; MINI = Mini International Neuropsychiatric Interview; PANSS = Positive and Negative Syndrome Scale; TDM = Transtorno Depressivo Maior.

Resultado da Avaliação da Qualidade

Na avaliação de qualidade metodológica realizada com a NOS, os 14 estudos primários incluídos nesta revisão alcançaram uma pontuação média de 7,7, variando de 5 a 9 pontos. Cinco estudos atingiram a pontuação máxima de 9 pontos (Airaksinen et al., 2021; Choi et al., 2019; Gorkhali et al., 2020; Kim et al., 2020; Shen et al., 2019), demonstrando alto nível de evidência, o que é um indicativo de baixo risco de viés. Por outro lado, três estudos obtiveram pontuações inferiores a 7 (Fugger et al., 2018; Gunes, 2020; Kamyshna et al., 2022), apontando para potenciais riscos de viés. Os cinco artigos restantes alcançaram pontuações acima de 7 (Hong et al., 2018; Kafle et al., 2020; Shen et al., 2019; Zhao et al., 2021; Zhou et al., 2021), indicando baixo risco de viés e alta qualidade da evidência, apesar de terem sido identificadas algumas limitações metodológicas. As pontuações, incluindo médias e avaliações por dimensão para cada estudo, encontram-se detalhadas na Tabela 2.

Tabela 2

Nível de Qualidade dos Estudos Primários

Estudos Design do
estudo
Seleção
(Pontos)
Comparabilidade
(Pontos)
Desfecho
(Pontos)
Pontuação
Total (Máx = 9)
Airaksinen et al. (2021)Transversal5139
Fugger et al. (2018)Transversal3126
Gorkhali et al. (2020)Transversal5139
Hong et al. (2018)Transversal4138
Kafle et al. (2020)Transversal5128
Kim et al. (2020)Transversal5139
Shen et al. (2019)Transversal5139
Zhao et al. (2021)Transversal4138
Zhou et al. (2021)Transversal4138
Choi et al. (2019)Coorte4239
Kim et al. (2018)Coorte3227
Kamyshna et al. (2022)Caso-controle4116
Yuan et al. (2020)Caso-controle4217
Gunes et al. (2020)ECR3115

Nota. ECR = Ensaio Randomizado Controlado.

Resultado da Síntese dos Dados

Tipos de Hipotireoidismo nos Estudos Primários

Entre os 14 estudos analisados que investigaram a associação entre desregulação da tireoide e sintomas depressivos, cinco focaram exclusivamente em indivíduos com hipotireoidismo, enquanto seis se concentraram apenas em hipotireoidismo subclínico. Dois estudos abordaram tanto o hipotireoidismo quanto o hipotireoidismo subclínico, e um estudo investigou pacientes com hipotireoidismo em combinação com hipotireoidismo subclínico, hipotireoidismo secundário e secreção inapropriada de TSH.

Avaliação da Depressão nos Estudos Primários

Dos 14 estudos incluídos nesta revisão, 12 deles utilizaram escalas para avaliar a presença de sintomas depressivos. Dentre eles, seis estudos utilizaram a Escala Hamilton para Depressão (HAM-D), três utilizaram o Questionário de Saúde do Paciente (PHQ-9), um estudo aplicou a Mini Entrevista Neuropsiquiátrica Internacional (MINI), um empregou a Escala de Depressão do Centro de Estudos Epidemiológicos (CES-D) e outro utilizou o Inventário de Depressão de Beck (BDI). Somente dois artigos optaram por avaliações diagnósticas, utilizando o CID-10 e o DSM-5 (Tabela 1).

Discussão

Na presente revisão sistemática, a maioria dos estudos primários incluídos sustenta a hipótese de uma relação entre hipotireoidismo e o desencadeamento ou agravamento dos sintomas de depressão.

Os estudos que utilizaram a HAM-D na avaliação de pacientes com hipotireoidismo clínico mostraram uma associação positiva (Gorkhali et al., 2020; Kafle et al., 2020; Kamyshna et al., 2022; Shen et al., 2019; Zhao et al., 2021), assim como aqueles que basearam seu diagnóstico na utilização no DSM-5 ou CID-10 (Choi et al., 2019; Zhou et al., 2021). Interessantemente, indivíduos com hipotireoidismo apresentaram pontuações mais altas no HAM-D em comparação com grupos controle saudáveis e pacientes com outros transtornos tireoidianos (Yuan et al., 2020). O estudo randomizado controlado conduzido por Gunes (2020) também identificou pontuações mais altas no BDI em pacientes com hipotireoidismo.

Além disso, formas induzidas de hipotireoidismo, como aquelas resultantes de doenças autoimunes da tireoide ou cirurgias de tireoidectomia, também apresentaram desfechos semelhantes (Choi et al., 2019; Kamyshna et al., 2022). No entanto, a heterogeneidade metodológica entre os estudos, particularmente em relação ao tamanho das amostras, instrumentos de avaliação e critérios diagnósticos, limita a comparabilidade direta dos resultados. Esta variabilidade enfatiza a necessidade de estudos futuros com amostras maiores e metodologias padronizadas. Tais estudos são cruciais para validar e compreender melhor a relação entre hipotireoidismo e depressão, potencialmente influenciando práticas clínicas e abordagens de tratamento.

Adicionalmente, foi identificado que os sintomas depressivos podem persistir mesmo em paciente submetidos a terapia hormonal (Gorkhali et al., 2020), mesmo após alcançarem o estado eutireoideo com a reposição hormonal (Gunes, 2020). Esses resultados sugerem que o tratamento exclusivo com reposição hormonal pode não ser suficiente na mitigação dos sintomas depressivos associados ao hipotireoidismo. No entanto, uma limitação importante desses estudos é a falta de detalhes sobre a especificidade do tratamento, incluindo o tipo de medicação utilizada e a duração da terapia o que compromete a confiabilidade do desfecho. Esta observação encontra eco nos resultados da meta-análise conduzida por Loh et al. (2019), que investigaram o efeito da terapia com levotiroxina na remissão de sintomas depressivos em pacientes com hipotireoidismo subclínico coexistente. Os autores postularam que os resultados limitados em termos de remissão de sintomas podem ser atribuídos à duração curta das intervenções ou à influência do estado depressivo na atividade da enzima D2. Esta enzima pode afetar a conversão da levotiroxina em rT3, resultando em uma deficiência de T3 livre. Tais achados ressaltam a necessidade de mais investigações para explorar as variáveis relacionadas à terapia hormonal, como tipos de tratamento, dosagens, duração da intervenção e os mecanismos moleculares subjacentes, para uma compreensão mais aprofundada das interações entre hipotireoidismo e depressão.

Em complemento às observações anteriores, algumas revisões científicas têm destacado a potencial aplicação do hormônio T3 livre como um adjuvante no tratamento inicial com antidepressivos tricíclicos, especialmente em mulheres com transtornos de humor persistente (Altshuler et al., 2001; Bauer & Whybrow, 2021). Embora o mecanismo molecular subjacente ainda não seja plenamente compreendido, hipotetiza-se que a interação entre a função tireoidiana e o sistema de monoaminas, especialmente através do aumento da atividade nos receptores β-adrenérgicos, possa contribuir para uma resposta mais rápida aos antidepressivos em pacientes com hipotireoidismo (Bauer & Whybrow, 2021). Estudos em animais demonstraram que a administração de hormônios tireoidianos modifica o sistema serotoninérgico no cérebro, tanto maduro quanto em desenvolvimento. Observou-se uma redução na sensibilidade dos receptores autoinibitórios 5-HT1A da rafe, juntamente com um aumento da ação da serotonina nos receptores 5-HT2 corticais e hipocampais, elevando os níveis de serotonina no córtex cerebral. Tais efeitos poderiam contribuir com as alterações comportamentais e de humor observadas em transtornos depressivos (Bauer et al., 2002). Contudo, apesar dessas perspectivas promissoras, ainda é necessária mais investigação para determinar se a terapia com hormônios da tireoide pode ser efetivamente e seguramente aplicada no tratamento de sintomas depressivos, considerando as diferentes apresentações clínicas e respostas individuais.

Em relação aos pacientes com depressão mensurados pelo HAM-D, foi identificado que 11,8% (Zhao et al., 2021) e 12,2% (Kafle et al., 2020) preenchiam critérios para hipotireoidismo subclínico. Um estudo que utilizou o PHQ-9 reportou uma prevalência de 9,4% para hipotireoidismo subclínico, um número que, embora inferior aos percentuais anteriores, ainda excede as taxas de referência estabelecidas para esta condição no contexto nacional analisado por Kim et al. (2020). Embora estes resultados sugiram que a maioria dos pacientes com depressão não apresenta anormalidades tireoidianas, é importante realizar análise dos níveis hormonais da tireoide em pacientes depressivos para descartar a influência fisiopatológica do hipotireoidismo nos quadros depressivos e iniciar o tratamento hormonal adequado, se necessário.

Além disso, é importante considerar que as condições fisiopatológicas associadas à depressão também podem afetar a função tireoidiana (Almeida et al., 2013). Por exemplo, um estudo transversal reportou alterações nos níveis hormonais da tireoide, dentro da faixa normal, em indivíduos com depressão (Zhou et al., 2021). Isso poderia ser explicado pela hipótese do “hipotireoidismo cerebral”, que relaciona níveis elevados de cortisol com a inibição da enzima D2, reduzindo a conversão de T4 em T3 e, consequentemente, diminuindo sua concentração (Hage & Azar, 2012).

Adicionalmente, esta revisão reforça a noção já bem estabelecida de que a interação entre transtorno depressivo e hipotireoidismo é mais prevalente em mulheres (Bode et al., 2021). Três dos estudos primários destacaram essa associação (Fugger et al., 2018; Gunes, 2020; Zhao et al., 2021). Especificamente, o estudo de Zhao et al. (2021) observou uma incidência duas vezes maior de hipotireoidismo subclínico em mulheres internadas com TDM. Esse achado pode estar relacionado estar associado a fatores fisiológicos quanto culturais que predispõem as mulheres ao desenvolvimento de TDM e hipotireoidismo. No caso da depressão, a prevalência chega a ser duas vezes maior em mulheres, possivelmente devido a uma combinação de fatores genéticos, hormonais, psicológicos e ambientais, como a maior frequência de violência e abuso sexual, e também devido a questões culturais, como a menor procura dos homens por cuidados de saúde (Altshuler et al., 2001; Kuehner, 2017). Adicionalmente, o hipotireoidismo primário afeta de oito a nove vezes mais mulheres do que homens (Chiovato et al., 2019), ressaltando a importância de considerar o sexo como um fator de risco tanto para os sintomas depressivos quanto para os quadros depressivos potencialmente influenciados pelo hipotireoidismo.

Nas análises dos estudos primários, também se constatou que a presença de hipotireoidismo como comorbidade no TDM esteve associada a desfechos clínicos mais graves, incluindo sintomas psicóticos (Fugger et al., 2018) e tentativas de suicídio (Shen et al., 2019). Esses resultados estão alinhados à meta-análise que identificou baixos níveis de FT3 e FT4 e concentrações elevadas de TSH — indicativos de hipotireoidismo — em pacientes com histórico de tentativa de suicídio (Toloza et al., 2021). Curiosamente, apesar de estudos anteriores apontarem um impacto limitado ou inexistente de marcadores biológicos nas tentativas de suicídio, marcadores tireoidianos frequentemente não são considerados nestas análises (Chang et al., 2016). Os resultados desta revisão indicam a necessidade de investigar mais a fundo o papel da glândula tireoide e do eixo hipotálamo-hipófise-tireoide em desfechos graves associados à depressão.

Em contraste, a relação entre o hipotireoidismo subclínico e a depressão apresentou resultados mais ambíguos. Por exemplo, um estudo de coorte envolvendo 220.545 participantes na Coreia do Sul não encontrou uma associação significativa entre hipotireoidismo subclínico e sintomas depressivos (Kim et al., 2018). Além disso, estudos transversais que utilizaram o PHQ-9 para avaliar sintomas depressivos verificaram que a associação entre os quadros é pouco significativa (Airaksinen et al., 2021; Hong et al., 2018). Essas discrepâncias podem ser atribuídas às diferenças metodológicas entre os estudos, especialmente na escolha dos instrumentos de avaliação, ressaltando a necessidade de uma padronização maior nos métodos e replicação de pesquisa para esclarecer a relação entre hipotireoidismo e depressão.

Limitações

Esta revisão apresenta algumas limitações que merecem destaque. Primeiramente, a inclusão de estudos primários com diferentes metodologias, incluindo estudos caso-controle e ensaio clínico randomizado, contribui para a diversidade das evidências, mas também introduz desafios na interpretação dos resultados em termos de prevalência. Essa variedade metodológica, embora permita uma compreensão mais ampla da coexistência entre depressão e hipotireoidismo, pode limitar a comparação direta entre os estudos.

Outra limitação a ser considerada é a heterogeneidade das amostras incluídas nos estudos primários, uma vez que eles apresentaram diferenças em relação à idade, sexo, estágio da doença e outros fatores relevantes. Essa heterogeneidade pode afetar a generalização dos resultados e a comparação entre os estudos.

A utilização de apenas três bases de dados e a estudos publicados em três idiomas também deve ser considerada uma limitação. Essa decisão, embora baseada na abrangência das bases de dados e na proficiência linguística das revisoras, pode ter excluído estudos relevantes publicados em outros idiomas ou em outras bases de dados.

Considerando a complexidade do tema e a sua relevância na saúde mental, é essencial a realização de estudos de meta-análises para fornecer evidências mais robustas e conclusivas sobre a associação entre depressão e hipotireoidismo.

Ainda assim, os resultados desta revisão sistemática têm implicações importantes para a prática clínica em saúde mental, especialmente para profissionais que trabalham com pacientes com depressão maior ou hipotireoidismo. Os achados destacam a importância de avaliar a função tireoidiana em pacientes com sintomas depressivos, especialmente em mulheres e em pacientes com sintomas psicóticos ou história de tentativa de suicídio, a fim de excluir influências fisiológicas em desfechos comportamentais. Esses resultados ressaltam a importância de uma abordagem integrada do tratamento. Contudo, é necessário enfatizar que mais pesquisas são necessárias para elucidar completamente a relação entre a função tireoidiana e a depressão maior, tanto no contexto do hipotireoidismo clínico quanto subclínico.

Conclusão

Esta revisão sistemática ressalta que, apesar dos avanços significativos na compreensão da relação entre hipotireoidismo e depressão, ainda existem lacunas consideráveis no conhecimento sobre como as alterações hormonais tireoidianas afetam o comportamento humano. A maioria dos estudos primários analisados apoia a hipótese de uma ligação entre o hipotireoidismo e a depressão, particularmente no que diz respeito à gravidade dos sintomas depressivos. Este vínculo sugere a necessidade de pesquisas adicionais, particularmente aquelas que examinam o papel do hipotireoidismo em desfechos graves, como comportamento suicida e sintomas psicóticos.

É igualmente importante destacar a relevância do diagnóstico precoce e do tratamento apropriado tanto do hipotireoidismo quanto dos sintomas depressivos, especialmente quando essas condições coexistem. Como evidenciado, os sintomas depressivos podem persistir mesmo após o tratamento hormonal em pacientes com hipotireoidismo, indicando a complexidade da interação entre essas duas condições. Essa associação pode não apenas agravar a severidade dos sintomas depressivos, mas também contribuir para desfechos clínicos mais graves. Portanto, é essencial que os profissionais de saúde adotem uma abordagem holística, incluindo a avaliação dos níveis hormonais da tireoide e a consideração de intervenções psicológicas apropriadas, para tratar de forma eficaz os pacientes com sintomas depressivos associados ao hipotireoidismo.

Agradecimentos e Autoria

Agradecimentos: Os autores não indicaram quaisquer agradecimentos.

Conflito de interesses: Os autores não indicaram quaisquer conflitos de interesse.

Fontes de financiamento: Este estudo não recebeu qualquer financiamento específico.

Declaração de Contributos de Autoria CRediT: ESS: Conceptualização; Metodologia; Validação; Redação – Rascunho Original; Redação – Revisão & Edição; Visualização. MCM: Metodologia; Validação; Redação – Revisão & Edição. RSC: Metodologia; Validação; Redação – Revisão & Edição; Supervisão.

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