Introdução
A inovação compreende um produto ou processo, que pode ser criado, aperfeiçoado ou ambos, sendo utilizado pelas organizações ou disponibilizado para uso (Zastempowski & Cyfert, 2021). A inovação organizacional representa um motor de competitividade e produtividade, apresentando um impacto positivo no valor e na reputação das organizações, especialmente quando relacionada com a diversidade de género (di Tollo et al., 2023, Jansen et al., 2021, Hossain et al., 2020). Além disso, a representação feminina no Conselho Administrativo tem sido associada a um melhor desempenho empresarial (Chen et al., 2018; Huang et al., 2023).
A crescente presença de mulheres em posições de liderança em empresas de pequeno e médio porte também impulsiona a diversidade de gênero em outros níveis da organização, o que contribui para a inovação e competitividade (Esteban-Salvador & Gargallo-Castel, 2019). No entanto, a ascensão das mulheres a cargos hierárquicos superiores ainda enfrenta barreiras significativas, exigindo a implementação de políticas afirmativas. Estas políticas são necessárias para mitigar o teto de vidro — uma barreira sutil e invisível, mas suficientemente resistente para impedir que mulheres alcancem níveis hierárquicos mais altos nas organizações (Beltramini et al., 2022; Singh et al., 2023) —, além de promover a equiparação salarial com os homens e proporcionar um maior equilíbrio entre a vida profissional e pessoal. Este equilíbrio pode converter-se em uma vantagem competitiva para as empresas, pois estimula a retenção de mulheres em seus quadros (Esteban-Salvador & Gargallo-Castel, 2019).
Registra-se, no entanto, que o cumprimento da quota da diversidade de gênero apenas para manter uma reputação organizacional, em vez de combater os efeitos do teto de vidro, reforça o preconceito, os estereótipos, a discriminação e as desigualdades culturais, além de não potencializar a contribuição das mulheres na tomada de decisões corporativas (Adams et al., 2023; Joecks et al., 2023; Sánchez et al., 2023; Christensen et al., 2022).
Um relatório recente da Organização Internacional do Trabalho, que aborda as perspectivas sociais e de emprego no mundo no contexto pós-pandêmico, revela que a recuperação do emprego feminino foi mais significativa do que a do emprego masculino a nível regional. No entanto, as disparidades de gênero continuam acentuadas na América Latina e no Caribe (Mesquita et al., 2023; Nurillaev & Hiwatari, 2024). Este dado converge com a literatura existente, ao demonstrar que ainda há uma menor participação feminina nas empresas, o que influencia negativamente a inovação. Os achados de Na e Shin (2019) apoiam esta observação, mostrando o efeito significativo da diversidade de gênero na inovação das indústrias na Europa Oriental e na Ásia Central.
Neste aspecto, a diversidade também pode impactar a imagem da organização (Jansen et al., 2021), além de criar valor e favorecer investimentos (Benkraiem et al., 2021; Hossain et al., 2020). Isso se deve às reformas regulamentares e ao aumento da participação feminina na política de governança dos países desenvolvidos, em conformidade com as recomendações dos organismos internacionais. Essas normas institucionais são frequentemente incorporadas na cultura das multinacionais sediadas em contextos de mercados emergentes (Attah-Boakye et al., 2020).
Por outro lado, as organizações que mantêm uma cultura conservadora, definindo competências profissionais de forma estereotipada por gênero ou por aspectos socioculturais que dificultam o acesso das mulheres à educação, tendem a criar barreiras para o desenvolvimento da inovação (Naoum et al., 2020; Atatsi et al., 2022). Outra barreira significativa é a estratificação da carreira acadêmica, que sugere a falta de acesso de grupos sub-representados a posições influentes, mesmo que esses grupos apresentem uma produção elevada de inovação científica (Hofstra et al., 2020).
Uma das implicações das discriminações de gênero, dos estereótipos e da falta de apoio nas esferas públicas e privadas é a ausência de incentivo à igualdade no trabalho. Estas questões constituem barreiras sistêmicas que resultam na falta de representação na força de trabalho, não refletindo a composição heterogênea da sociedade (Schmitt et al., 2023; Kim et al., 2021). Este cenário impede o desenvolvimento social e econômico. Mulheres, por exemplo, enfrentam dificuldades de acesso e promoção em carreiras nas áreas de saúde, ciências, tecnologia, engenharia e matemática, apesar de possuírem as taxas mais elevadas de inovação (Henningfield et al., 2021; Pompili et al., 2021; Denend et al., 2020; Hofstra et al., 2020; Botella et al., 2019).
Embora haja um grande número de mulheres em algumas carreiras de saúde, essa presença nem sempre se traduz em inclusão ou representatividade. Ainda existem disparidades salariais baseadas no gênero e baixa ocupação de mulheres em cargos de alta hierarquia médica. Além disso, mulheres nessa área são expostas a padrões de julgamento mais elevados, que atribuem ao gênero um menor nível de competência, fazendo delas uma maioria minorizada (Henningfield et al., 2021; Kim et al., 2021; Pompili et al., 2021).
Ao observar algumas propostas inovadoras que visam dar maior visibilidade à participação feminina, mitigar a cultura de desigualdade de gênero e reduzir a sub-representação de grupos não-hegemônicos no sistema científico atual, nota-se a ausência de discussões sobre a evolução científica dessa temática na literatura (Yassa & Edinger, 2023; Graves et al., 2022; Botella et al., 2019).
Neste contexto, surge a questão: como ocorre a relação entre diversidade de gênero e inovação nas organizações na literatura científica? Para responder a esse questionamento, o objetivo geral deste trabalho foi caracterizar essa relação. Para tanto, desenvolveu-se um desenho de pesquisa com análise bibliométrica da produção científica sobre o tema. Esta abordagem buscou elucidar a evolução das pesquisas sobre diversidade de gênero e inovação nas organizações, identificar lacunas e principais tendências nas pesquisas sobre o tema, e revelar os aspectos mais relevantes na relação entre diversidade de gênero e inovação nas organizações.
Método
Para responder ao problema de pesquisa, foi realizada uma análise bibliométrica de caráter descritivo. Esta análise permitiu um levantamento abrangente da produção científica sobre o tema, utilizando índices estatísticos combinados com uma análise qualitativa das publicações mais citadas. Desse modo, tratou-se de uma pesquisa descritiva, com utilização de métodos mistos (Moura et al., 2017).
A composição do portfólio de artigos utilizados neste estudo foi realizada em três etapas, sintetizadas na Figura 1.
Figura 1. Composição do Portfólio Metodológico
A partir do eixo de pesquisa "diversidade de gênero e inovação nas organizações", foi selecionada a base de dados Web of Science™ devido à sua ampla cobertura de periódicos de alto impacto e alta qualidade (Escamilla-Fajardo et al., 2020). Para realizar a pesquisa, foi elaborada a string de busca TS = (((Innovat*) OR (Breakthrough$) OR (Novelt*)) AND (gender$) AND ((Diversit*) OR (Variet*) OR (Assortment$) OR (Pluralis*) OR (Multiplicit*)) AND ((Organizat*) OR (Compan*) OR (Business*) OR (Firm$) OR (Enterprise$) OR (Undertaking$))).
A busca foi realizada no dia 04 de novembro de 2023, retornando 638 resultados. Em seguida, foram aplicados filtros limitantes. O primeiro filtro foi o tipo de documento, selecionando-se apenas artigos ou artigos de revisão, publicados ou no prelo, excluindo os demais tipos, o que resultou em 577 documentos. O segundo filtro foi referente ao idioma, selecionando apenas publicações em português, espanhol ou inglês, resultando em 574 documentos.
Para garantir a leitura completa das publicações, foram selecionados apenas aqueles com acesso aberto, resultando em um total de 245 documentos, formando assim o banco bruto de artigos. Os resumos e títulos destes documentos foram lidos para verificar seu alinhamento com o tema da pesquisa, excluindo-se 149 artigos não alinhados. O portfólio da bibliometria foi formado pelos 96 documentos restantes, cujos títulos e resumos estavam alinhados ao tema da pesquisa.
Este portfólio foi exportado para um arquivo no formato de texto plano e submetido à ferramenta Bibliometrix, que permitiu a aplicação de uma variedade de técnicas estatísticas e gráficas para sua organização, proporcionando uma análise bibliométrica abrangente (Aria & Cuccurullo, 2017). Os resultados foram apresentados em seções que abordam as áreas de pesquisa mais proeminentes, palavras-chave de autores, redes de colaboração por países, e tópicos de tendência.
Resultados e Discussão
Nesta seção, apresentam-se os resultados obtidos a partir dos dados coletados na base Web of Science™ e discute-se suas implicações. Especificamente, são apresentados gráficos com a análise evolutiva das publicações e citações relacionadas à temática, redes de colaboração por países, redes de co-ocorrências de palavras-chave e tópicos de tendência gerados pelo software de análise bibliométrica.
Evolução de Publicações e Citações da Temática
A literatura apresenta a diversidade de gênero como uma tendência nas empresas, considerando os interesses de diferentes stakeholders na tomada de decisão da gestão (Kartadjumena & Rodgers, 2019). Além disso, a teoria da legitimidade é consagrada ao adequar a gestão das atividades econômicas às mudanças sociais. A teoria da sinalização sugere às organizações contemporâneas a redução da assimetria entre as forças do mercado e as expectativas da sociedade (Esteban-Salvador & Gargallo-Castel, 2019). As publicações relacionadas às questões de gênero e aos sistemas de informação seguiram três abordagens teóricas, conforme Gorbacheva et al. (2019): o essencialismo de gênero (fundamentado nas diferenças biológicas e psicológicas entre homens e mulheres, criticado por reforçar estereótipos), a construção social de gênero (que rejeita a questão biológica e aborda diferenças socialmente construídas, criticada porque a sociedade muda de acordo com as experiências individuais) e a interseccionalidade de gênero (que analisa estruturas opressivas de poder e categorias que se cruzam) (Rosenkranz, 2024).
Um novo paradigma de marketing tem se tornado mais frequente em estudos sobre inovação articulada com as necessidades dos clientes, moldando a co-criação de valor de produtos e serviços (di Tollo et al., 2023). Nesta perspectiva, as organizações aumentaram a confiança do público ao desenvolver produtos e serviços de melhor qualidade, convertendo os recursos recebidos em inovação (Graves et al., 2022; Hakovirta et al., 2023; Javeed et al., 2022b; McGuire et al., 2022).
Com base nas publicações identificadas na base de dados, observou-se que os estudos sobre diversidade de gênero e inovação nas organizações se desenvolveram de maneira mais intensa em anos recentes. A Figura 2 apresenta um panorama evolutivo das publicações e citações relacionadas à temática.
Figura 2. Gráfico da Evolução Anual das Publicações e Citações sobre Diversidade de Gênero e Inovação nas Organizações
A Figura 2 evidencia a ausência de publicações sobre o tema no período de 2003 a 2010 na base de dados. Em 2011, as publicações começaram a surgir de forma tímida, com um aumento de interesse a partir de 2018. No ano de 2020, as publicações envolvendo diversidade de gênero e inovação nas organizações se ampliaram, mantendo-se em crescimento nos anos seguintes. Este aumento do interesse na temática pode ter sido influenciado pela pandemia de Covid-19, que impôs desafios ao empreendedorismo e à sustentabilidade das organizações, exigindo soluções inovadoras por meio de contribuições ativas dos diversos grupos sociais, incluindo mulheres (Kumari & Eguruze, 2022). Além disso, a intensificação das alterações climáticas e dos impactos ambientais tem gerado um maior interesse dos pesquisadores em investigar fatores que possam influenciar as organizações a ampliar suas estratégias de ecoinovação (Zheng & Iatridis, 2022).
No tocante às citações, a partir de 2012, a Figura 2 mostra um crescimento contínuo, com o ano de 2022 apresentando o maior número de citações. Isto indica um interesse cada vez mais acentuado na temática. O artigo mais citado deste portfólio, com 431 citações, foi o intitulado “Does a different view create something new? The effect of employee diversity on innovation” (Østergaard et al., 2011). Este artigo vinculou o impacto da diversidade do capital humano de uma empresa à capacidade de inovação, investigando os efeitos da diversidade de gênero, idade, etnia e educação (Østergaard et al., 2011).
As discussões sobre diversidade de gênero e inovação, com base neste portfólio bibliométrico, foram inauguradas pelo artigo "Addressing food scarcity in marginalized mountain environments – A participatory seed management initiative with women and men in Eastern Nepal", que abordou a participação das mulheres como estratégia inovadora no melhoramento das culturas para combater os déficits alimentares em uma comunidade remota no leste do Nepal (Gurung & Gurung, 2002).
Ao longo dos anos, a temática foi abordada em diversas relações. O artigo mais recente, considerando a data da busca na base de dados, intitulado "Does board diversity in industry-experience boost firm value? The role of corporate innovation", investigou o efeito da diversidade nos conselhos de administração na criação de valor, na promoção da inovação corporativa (Huang et al., 2023).
Autores Mais Produtivos e Redes de Colaboração por Países
Neste portfólio, um total de 310 autores contribuíram para a temática. A análise foi realizada utilizando a Lei de Lotka, que examina a contribuição de cada autor para o desenvolvimento científico da área. Segundo a Lei de Lotka, aproximadamente 60% dos autores são responsáveis por apenas uma contribuição (Abafe et al., 2022). Conforme essa análise, apenas 12 dos 310 autores possuiriam mais de uma publicação sobre o tema. Nesse sentido, a Tabela 1 apresenta os dez autores mais relevantes, incluindo a quantidade total de citações e o índice H (H-Index), que mede a produtividade e o impacto das citações das publicações de um pesquisador, equilibrando o número de publicações e o número de citações. Um autor tem índice H de 2 se publicou pelo menos dois artigos que foram citados pelo menos duas vezes cada um (Aria & Cuccurullo, 2017; Thomaz et al., 2011).
Tabela 1
Autores Mais Relevantes em Estudos sobre Diversidade de Gênero e Inovação nas Organizações
| Ordem | Autor | Índice H | Total de citações |
|---|---|---|---|
| 1 | Alam, M. S. | 2 | 16 |
| 2 | Amoroso, S. | 2 | 17 |
| 3 | Atif, M. | 2 | 61 |
| 4 | Benkraiem, R. | 2 | 11 |
| 5 | Bravo-Urquiza, F. | 2 | 15 |
| 6 | Chen, J. | 2 | 108 |
| 7 | Conroy, K. | 2 | 26 |
| 8 | Curseu, P. L. | 2 | 10 |
| 9 | Denuwara, N. | 2 | 9 |
| 10 | Eloranta, J. | 2 | 9 |
Embora o total de citações tenha variado entre os autores, observou-se que todos os dez mais citados possuíam o mesmo índice H. Thomaz et al. (2011) esclarecem que índices H semelhantes entre pesquisadores indicam similaridade em termos de impacto científico, mesmo que os autores apresentem grande diferença na quantidade de artigos ou no número total de citações.
O artigo "Cash-rich firms and carbon emissions", cujo autor ocupa o primeiro lugar na ordem de relevância, investigou o impacto das reservas de caixa no desempenho de carbono de empresas americanas, examinando, entre outras variáveis, a influência da presença de mulheres diretoras. No entanto, este estudo não confirmou a influência da diversidade de gênero nos resultados avaliados (Alam et al., 2022).
O autor Jie Chen, que apresentou o maior número total de citações, reuniu evidências de que uma composição representativa de mulheres nos Conselhos de Administração estava relacionada a um maior investimento em inovação e a um número maior de patentes e citações em empresas com perfil de investimento em inovação (Chen et al., 2018).
A produção científica por país e a análise da rede de colaboração entre países mapeiam a produção da comunidade científica, demonstrando as ligações entre os países que colaboram em determinados campos científicos (Moraes et al., 2015). Desse modo, a Figura 3 apresenta a produção científica sobre o tema gerada por cada país, bem como a rede de colaboração entre países envolvendo a diversidade de gênero e a inovação. As indicações de países e relações foram observadas a partir do(s) país(es) indicado(s) de vínculo do trabalho publicado, independentemente da língua em que o texto se apresenta.
Figura 3. Mapa de Produção Científica por País e Rede de Colaboração entre Países
A análise apresentada na Figura 3 revelou que pesquisadores de diversos países realizaram estudos em colaboração, com destaque para os pesquisadores dos Estados Unidos, que foram os principais contribuidores. Um exemplo significativo foi a parceria entre pesquisadores da Austrália e dos Estados Unidos, que resultou no artigo "Interdisciplinary collaboration from diverse science teams can produce significant outcomes", onde foram apresentadas evidências do impacto positivo da diversidade das equipes no número de produções científicas, além de destacar a necessidade de uma gestão integradora para alcançar um processo produtivo e inovador (Specht & Crowston, 2022).
Os Estados Unidos lideraram a produção científica sobre o tema, com 152 artigos publicados, seguidos pelo Reino Unido, com 84 publicações. Observou-se um predomínio de publicações em países ocidentais, o que pode refletir a realidade de países com características econômicas e tecnológicas semelhantes, não evidenciando os desafios enfrentados por países com economias menos desenvolvidas. Embora grande parte das revistas científicas publiquem artigos em língua inglesa, esse fato, por si só, não explica a concentração de publicações nesses países, uma vez que a indexação dos artigos foi baseada no vínculo de origem do trabalho.
Apesar do predomínio norte-americano e europeu nas publicações, foi possível destacar colaborações entre países do continente asiático. Um exemplo é o estudo realizado entre pesquisadores de Bangladesh, Malásia e China, que identificou o papel moderador da diversidade de gênero como benéfico para a implementação de estratégias inovadoras sustentáveis e para a obtenção de financiamento empresarial (Javeed et al., 2022a).
Periódicos e Afiliações
A análise dos periódicos mais influentes baseou-se na Lei de Dispersão de Bradford, que postula que a maior parte das publicações sobre um determinado tema é concentrada em um número limitado de periódicos. Esses periódicos, organizados em lista decrescente, formam zonas de influência (Abafe et al., 2022; Oliveira et al., 2023). Por meio da Lei de Bradford, foi possível identificar a Zona 1, que continha, em ordem decrescente, a lista dos periódicos mais produtivos sobre o tema deste estudo.
A análise revelou que o periódico "Sustainability" foi o mais produtivo sobre o tema, com 22 publicações, seguido pela revista "Plos One", com seis artigos. Publicado pela "Sustainability", o estudo de Lin et al. (2022) analisou empresas chinesas ao longo de dez anos para examinar como a diversidade de gênero nos conselhos de administração afetava a inovação verde. Os resultados deste estudo forneceram evidências empíricas de que a diversidade de gênero nos conselhos de administração promovia significativamente as inovações verdes, tanto em termos quantitativos quanto qualitativos (Lin et al., 2022).
Em 2022, a revista "Plos One" publicou um estudo com 22 grupos de trabalho científico, apresentando evidências de que uma equipe composta sob a perspectiva da diversidade levava a um aumento da produção científica em quantidade e número de citações. Entretanto, a diversidade da equipe também poderia causar conflitos interpessoais, gerando menor satisfação entre seus membros (Specht & Crowston, 2022).
A satisfação foi igualmente avaliada no estudo de Denend et al. (2020), que buscou caracterizar o panorama de gênero na indústria de tecnologia da saúde. Este estudo identificou não apenas a sub-representação feminina, mas também uma insatisfação das mulheres relacionada à baixa capacidade de ascensão, à dificuldade de equilibrar trabalho e família e ao ambiente pouco inclusivo. Este estudo teve como afiliação a Universidade de Stanford, que se destacou como a instituição mais relevante, com um total de 13 publicações, conforme evidenciado pela análise bibliométrica.
A segunda colocada entre as afiliações mais relevantes foi a Universidade de Málaga, localizada na Espanha, que contribuiu com nove artigos. Dentre eles, destacou-se uma investigação sobre o efeito do gênero do CEO na inovação e nas restrições financeiras de pequenas e médias empresas, evidenciando o impacto das mulheres na produção de inovação tecnológica e na inovação de gestão, independentemente do ramo de negócio, da idade ou da dimensão da empresa (Ruiz-Palomo et al., 2022).
Redes de Co-ocorrências de Palavras-chave
A análise das redes de co-ocorrências de palavras-chave permitiu identificar os conceitos mais relevantes e a estrutura temática das produções científicas sobre diversidade de gênero e inovação nas organizações. As palavras-chave oferecem a possibilidade de interpretar o conteúdo das produções de forma concisa, evidenciando os principais tópicos abordados (Marques et al., 2021). A Figura 4 reúne as principais palavras-chave elaboradas pelos autores, em co-ocorrência, demonstradas por rede temática.
Figura 4. Redes de Co-Ocorrências de Palavras-Chave sobre Diversidade de Gênero e Inovação nas Organizações
Na Figura 4, observa-se a ligação entre palavras-chave agrupadas em clusters diferenciados por cores. O cluster vermelho foi formado por 18 palavras-chave, destacando-se o termo "corporate governance", que se refere à governança corporativa, ligado à diversidade de gênero (“gender diversity”). Esta relação foi abordada em estudos que analisaram o impacto da inclusão de mulheres nos conselhos de administração sobre a inovação de produtos, processos e organizações (Heubeck & Meckl, 2023; Sánchez et al., 2023), bem como a criação de valor nas organizações decorrentes desta relação (Huang et al., 2023).
O cluster azul reúne dez palavras-chave em co-ocorrência, sendo as principais: “gender” (gênero); “innovation” (inovação); e “diversity” (diversidade). Neste grupo, destacaram-se artigos que interseccionaram gênero e raça na análise sobre diversidade e inovação (Quintana-Garcia; et al., 2022). O estudo de Hofstra et al. (2020) trouxe essa discussão para a produção científica, ao sugerir que grupos sub-representados, como minorias de gênero e raça, embora produzam taxas mais elevadas de inovação científica, tem suas contribuições menos aceites no meio acadêmico.
Por fim, o cluster verde relacionou duas palavras-chave: “board gender diversity”, que se refere à diversidade de gênero na composição dos conselhos administrativos e “green innovation”, que contempla as iniciativas de inovação voltadas à sustentabilidade. Nesta perspectiva, foi possível encontrar evidências de que a heterogeneidade da composição do conselho favorecia a promoção de práticas empresariais eco-inovadoras (Lin et al., 2022; Zaman et al., 2023), bem como o debate acerca da inovação na promoção dos 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, especialmente no tocante ao empoderamento feminino (Mahsina, 2023).
Tópicos de Tendência
A Figura 5 permitiu a identificação de tópicos de tendência, obtidos através da co-ocorrência de palavras-chave dos autores, agrupadas conforme a centralidade e a densidade de Callon (Callon et al., 1991). A figura é composta por dois eixos, onde o eixo vertical se refere à densidade de um tema, enquanto o eixo horizontal representa sua centralidade.
Figura 5. Tópicos de Tendência com Base na Co-ocorrência de Palavras-chave
Na Figura 5, formam-se quatro quadrantes. Os quadrantes superiores trazem, à esquerda, temas altamente especializados, denominados temas de nicho, que são bastante desenvolvidos, porém de menor relevância. Dentre eles, destacou-se o uso da Teoria da Agência na análise do tema, sobretudo alinhada aos estudos que relacionavam diversidade de gênero e inovação ambiental. Nesse sentido, identificou-se um efeito benéfico da diversidade de gênero para o desenvolvimento de estratégias inovadoras com vistas à adoção de práticas sustentáveis, as quais poderiam reduzir o conflito de agência (Javeed et al., 2022a; Javeed et al., 2022b).
Presente em diversos artigos, o uso do termo “female” (feminino) indicou que a diversidade de gênero, nestes estudos, ainda se restringiu a uma perspectiva binária (Fine et al., 2020; Ritter-Hayashi et al., 2019). Com efeito, nesta pesquisa, apenas um estudo abordou a transgeneridade, demonstrando que a inclusão de pessoas com identidade LGBTQIAPN+ no local de trabalho estimulava a inovação e conduzia a um melhor desempenho das empresas (Hossain et al., 2020). A busca por gênero, mesmo que não especificasse o contexto da transgeneridade, poderia gerar resultados que indicassem pessoas transgênero como objeto de análise.
No quadrante superior direito, evidenciam-se os temas motores, amplamente desenvolvidos e de grande relevância. Estudos que abordaram os fatores relacionados à igualdade entre os gêneros estão localizados principalmente nesta área e incluem discussões críticas acerca da desigualdade de gênero e das estratégias inovadoras voltadas para a inclusão de gêneros diversos nas organizações (Christensen et al., 2022; Graves et al., 2022).
Também se destacam, entre os temas motores, discussões voltadas à influência do gênero na implementação de estratégias inovadoras nos países em desenvolvimento, abordando desde contribuições no setor agrícola até discussões críticas acerca da disparidade de gênero na inovação (Biscione et al., 2022; McGuire et al., 2022; Na & Shin, 2019; Nguyen et al., 2023).
Os temas emergentes ou em declínio foram identificados no quadrante inferior esquerdo, indicando temáticas que podem estar em desenvolvimento ou desaparecimento. Neste grupo, encontram-se publicações acerca da diversidade de gênero voltada para pesquisa científica e desenvolvimento, na busca de melhorar o desempenho e a produtividade das organizações (Chen et al., 2018; Hernández-Lara et al., 2021; Alarcón-Alarcón, 2021).
As relações entre diversidade de gênero e colaboração científica também foram objeto de estudos que apontaram desde os benefícios de um processo colaborativo heterogêneo, até os desafios, incluindo sub-representação e dificuldade de integração (Natcher et al., 2020; Specht & Crowston, 2022).
Por fim, o quadrante inferior direito apresenta temas básicos, que ainda estão pouco desenvolvidos, mas possuem grande relevância para a área, indicando as principais perspectivas para pesquisas futuras. Neste grupo, encontram-se os estudos que avaliavam o efeito na inovação quando havia presença feminina em cargos de liderança, analisando a relação entre o gênero e a hierarquia organizacional para a inovação nas organizações, desde a captação de recursos ao desenvolvimento e implementação de produtos e processos (Biscione et al., 2022; Javaid et al., 2023; Joecks et al., 2023; Na & Shin, 2019).
Publicações Mais Citadas
As cinco publicações sobre a temática que receberam o maior número de citações estão listadas na Tabela 2. Os três primeiros artigos, assim como o sexto, o oitavo e o décimo estudos da tabela, apresentaram conclusões positivas acerca dos efeitos da diversidade de gênero para a inovação nas organizações (Bernile et al., 2018; Chen et al., 2018; Hofstra et al., 2020; Lightfoote et al., 2014; Østergaard et al., 2011; Ruiz-Jiménez & Fuentes-Fuentes, 2016).
Entretanto, Hofstra et al. (2020) alertaram para a desvalorização das contribuições inovadoras produzidas por grupos não hegemônicos, enquanto Ruiz-Jiménez e Fuentes-Fuentes (2016) destacaram a necessidade de uma análise mais abrangente acerca da composição das equipes de gestão no contexto das pequenas e médias empresas tecnológicas.
Tabela 2
Publicações Mais Citadas
| Ordem | Título do Artigo | Autor/Ano de Publicação | Total de Citações |
|---|---|---|---|
| 1 | Does a different view create something new? The effect of employee diversity on innovation | (Østergaard et al., 2011) | 432 |
| 2 | The Diversity-Innovation Paradox in Science | Hofstra et al. (2020) | 373 |
| 3 | Board diversity, firm risk, and corporate policies | Bernile et al. (2018) | 299 |
| 4 | Diversity faultlines, shared objectives, and top management team performance | Van Knippenberg et al. (2011) | 166 |
| 5 | Maximizing the Gains and Minimizing the Pains of Diversity: A Policy Perspective | Galinsky et al. (2015) | 142 |
| 6 | Improving Diversity, Inclusion, and Representation in Radiology and Radiation Oncology Part 1: Why These Matter | Lightfoote et al. (2014) | 142 |
| 7 | A strategic approach to social sustainability - Part 1: exploring the social system | Missimer et al. (2017) | 130 |
| 8 | Female board representation, corporate innovation and firm performance | Chen et al. (2018) | 94 |
| 9 | Gender Diversity in STEM Disciplines: A Multiple Factor Problem | Botella et al. (2019) | 80 |
| 10 | Management capabilities, innovation, and gender diversity in the top management team: An empirical analysis in technology-based SMEs | Ruiz-Jiménez & Fuentes-Fuentes (2016) | 77 |
Os estudos de Van Knippenberg et al. (2011) e Galinsky et al. (2015), que ocupam a quarto e quinto posições, respectivamente, abordaram as dificuldades e conflitos envolvidos na relação entre gêneros diversos e seu impacto na inovação das organizações. Galinsky et al. (2015) destacaram uma abordagem gerencial voltada para a tomada de perspectiva como sugestão de medida para a redução de estereótipos e preconceitos.
Na sétima posição entre os mais citados, o artigo de Missimer et al. (2017) compreendeu a primeira parte de uma tentativa de definição operacional baseada na sustentabilidade social. Neste estudo, foi apresentada uma proposta inovadora de abordagem sistêmica voltada para o capital social e a diversidade.
O artigo de Botella et al. (2019), que ocupa a nona posição nesta lista, também apresentou uma análise de um programa inovador, cuja implementação visou diminuir disparidades na diversidade de gênero no âmbito das carreiras profissionais relacionadas às ciências, tecnologia, engenharia e matemática. O programa incluiu ações de incentivo e apoio institucional, aumento da rede de apoio profissional, promoção e apoio à liderança e aumento da visibilidade de modelos femininos. Essas iniciativas contribuíram para aumentar o número de mulheres graduadas nessas áreas e elevar a quantidade de mulheres docentes em cargos de decisão hierarquicamente superiores (Botella et al., 2019).
Limitações
Este estudo apresenta algumas limitações que devem ser consideradas ao interpretar os resultados. Primeiramente, a análise bibliométrica baseou-se exclusivamente na base de dados Web of Science™, o que pode ter excluído relevantes contribuições publicadas em outras bases de dados. Além disso, observou-se um predomínio de publicações de países com economias e arcabouços tecnológicos mais desenvolvidos, como os Estados Unidos e o Reino Unido, o que pode não refletir completamente a realidade de países com economias menos desenvolvidas. Essa concentração geográfica pode ter influenciado os resultados e limita a generalização das conclusões para contextos globais diversos.
Outra limitação está relacionada ao foco dos estudos analisados, que em grande parte abordam a representatividade feminina em cargos de gestão de alto nível. Há uma necessidade de expandir as investigações para incluir outros níveis hierárquicos, que frequentemente são responsáveis pela execução e desenvolvimento de processos inovadores. Por fim, a interseccionalidade entre gênero e outros marcadores sociais, como raça, etnia e classe social, foi pouco explorada, sugerindo a necessidade de estudos futuros que abordem essas dimensões de maneira mais integrada.
Conclusão
A inovação de produtos e processos é um elemento fundamental para a sustentabilidade e a competitividade das organizações. A composição diversificada das equipes, com ampliação da representatividade feminina, associada a um ambiente organizacional inclusivo, tem sido relacionada com o aumento da criatividade e da colaboração de conhecimentos, facilitando a inovação.
Apesar dos benefícios, promover a diversidade de gênero com intuito de impulsionar a inovação tem sido desafiador para as organizações, considerando as barreiras culturais e de acesso que persistem. Diante disso, este estudo buscou caracterizar a relação entre diversidade de gênero e inovação nas organizações por meio de uma análise bibliométrica. Ao apresentar elementos capazes de facilitar a compreensão de como ocorre essa relação, este estudo contribuiu para fortalecer o debate científico e o conhecimento sobre o tema. Ademais, forneceu elementos importantes para a elaboração de estratégias gerenciais e políticas públicas capazes de reduzir as disparidades de gênero, auxiliando na busca pela justiça social e pelo desenvolvimento sustentável das nações.
Nota-se ainda que o total de citações varia entre os autores mais relevantes, apontando os resultados para uma similaridade entre eles em termos de impacto científico. A análise das principais palavras-chave revela estudos que analisam o impacto da inclusão de mulheres no conselho de administração sobre a inovação, a criação de valor nas organizações, a inovação verde e o impacto da diversidade de gênero na inovação em comparação com outros grupos sociais sub-representados.
Apesar da importância da inovação no ambiente empresarial, as relações entre diversidade de gênero e colaboração científica têm sido objeto de estudos, considerando o potencial de inovação do meio científico. Também merecem destaque os estudos que abordam a diversidade de gênero para o desenvolvimento de estratégias inovadoras com vistas à adoção de práticas de sustentabilidade social.
Por fim, é relevante levantar ações afirmativas e legislação inclusiva sobre diversidade de gênero, que contribuam para adaptar a inovação corporativa aos diferentes contextos socioculturais e institucionais.
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