ARTIGO de REVISÃO
Violência no namoro em adolescentes e jovens brasileiros: revisão sistemática da literatura
Dating violence among Brazilian adolescents and young people: A systematic literature review
1 Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Departamento de Psicologia, João Pessoa, Paraíba, Brasil
* Artigo escrito em português do Brasil.
Recebido: 06/01/2025; Revisto: 03/07/2025; Aceite: 08/09/2025.
Resumo
Contexto e Objetivo: A violência no namoro é um fenómeno social caracterizado por agressões físicas, psicológicas, sexuais ou virtuais entre parceiros íntimos, com o objetivo de controlar e dominar a outra pessoa. Este estudo teve como objetivo realizar uma revisão sistemática da literatura sobre a violência no namoro de adolescentes e adultos jovens brasileiros. Métodos: Trata-se de uma revisão sistemática da literatura, conduzida de acordo com as recomendações do PRISMA, nas bases SciELO, LILACS, PePSIC e no Portal de Periódicos da CAPES. Foram incluídos estudos empíricos realizados no Brasil, com amostras de adolescentes e/ou adultos jovens, publicados entre 2013 e 2023. A busca identificou 647 registos, dos quais 27 atenderam a todos os critérios de elegibilidade e foram incluídos na síntese narrativa. Resultados: Os achados indicaram que a violência no namoro tem sido caracterizada em três eixos principais: (a) fatores familiares, socioculturais e individuais associados à perpetração e à vitimização; (b) prevalências e padrões dos diferentes tipos de violência, incluindo modalidades presenciais e mediadas por tecnologias digitais; e (c) estratégias de enfrentamento e de pedido de ajuda, com predomínio do recurso a redes informais de apoio. Conclusões: Em suma, os resultados reforçam a violência no namoro como problema de saúde pública e de direitos humanos e podem subsidiar o desenvolvimento de programas de intervenção culturalmente sensíveis, que promovam a identificação, a prevenção e o enfrentamento da violência no namoro entre adolescentes e adultos jovens, visando à redução de comportamentos violentos e à promoção de relacionamentos mais saudáveis. Registo PROSPERO: CRD42024569918.
Palavras-Chave: Adolescentes; Adulto Jovem; Brasil; Violência no namoro; Violência por parceiro íntimo; Revisão sistemática da literatura.
Abstract
Background and Objective: Dating violence is a social phenomenon characterized by physical, psychological, sexual, or online aggression between intimate partners, aimed at controlling and dominating the other person. This study aimed to conduct a systematic review of the literature on dating violence among Brazilian adolescents and young adults. Method: This systematic review followed PRISMA 2020 recommendations and was conducted in the SciELO, LILACS, PePSIC, and CAPES Journals Portal databases. Eligible studies were empirical investigations conducted in Brazil with adolescent and/or young adult samples, published between 2013 and 2023. The search strategies identified 647 records, of which 27 met all eligibility criteria and were included in the narrative synthesis. Results: The findings showed that dating violence has been examined along three main axes: (a) family, sociocultural, and individual factors associated with perpetration and victimization; (b) prevalence and patterns of different types of violence, including both offline and technology-mediated forms; and (c) coping and help-seeking strategies, with a predominance of informal support from peers and close networks. Conclusions: Overall, the results support the view of dating violence as a public health and human rights issue and are expected to inform the development of culturally sensitive intervention programs that promote the identification, prevention, and management of dating violence among adolescents and young adults, with a view to reducing violent behaviors and promoting healthier relationships. PROSPERO registration: CRD42024569918.
Keywords: Adolescents; Young Adult; Dating Violence; Brazil; Intimate Partner Violence; Systematic Review of the Literature.
Ao longo da adolescência e da adultez emergente, os indivíduos atravessam profundas transformações físicas, cognitivas, psicológicas e sociais (Xavier & Nunes, 2015). Do ponto de vista físico, ocorre maturação pubertária, desenvolvimento de caracteres sexuais secundários e alterações na composição corporal (Rogol et al., 2000; Sawyer et al., 2018). Em termos cognitivos, a maturação progressiva do córtex pré-frontal e das conexões fronto-parietais, em interação com sistemas subcorticais motivacionais, sustenta o refinamento das funções executivas, do raciocínio abstrato e da capacidade de controlo inibitório (Arain et al., 2013; Konrad et al., 2013). No plano psicológico, esse período caracteriza-se por uma maior complexidade da experiência emocional e por processos intensificados de exploração e compromisso identitário, que se prolongam da adolescência para a adultez emergente (Arnett, 2014; Branje et al., 2021). Finalmente, no nível social, ocorre uma reconfiguração das relações com a família, o grupo de pares e os parceiros românticos, com aumento da autonomia em relação às figuras parentais, maior centralidade das relações entre pares e início de relações íntimas mais estáveis (Allen & Loeb, 2015; Zimmer-Gembeck, 2002).
Nesse período, frequentemente são estabelecidas as primeiras relações amorosas, incluindo o namoro, entendido como uma forma de relacionamento afetivo relativamente estável e continuado ao longo do tempo (Brêtas et al., 2017; Collins, 2003; Furman & Shaffer, 2003; Nogueira & Muzzeti, 2017). Esse tipo de vínculo integra componentes amorosos e sexuais, parcerias, apoio mútuo e compromisso relacional (Bittar & Nakano, 2017; Silva et al., 2021). Contudo, adolescentes e jovens adultos constituem grupos particularmente vulneráveis a experienciar e/ou perpetrar comportamentos abusivos no contexto do namoro, com prevalências significativas de violência física, psicológica e sexual descritas em estudos nacionais (Brancaglioni & Fonseca, 2016; Oliveira et al., 2021) e internacionais (Duval et al., 2020; Wincentak et al., 2017).
Nesse contexto, a violência no namoro (VN) é conceptualizada como uma forma específica de violência por parceiro/a íntimo, que engloba padrões reiterados de comportamentos físicos, sexuais e psicológicos, bem como perseguição (stalking) e agressões mediadas por tecnologias de informação e comunicação, perpetrados por parceiro/a ou ex-parceiro/a em relações de namoro (Ackard & Eisenberg, 2024; Centers for Disease Control and Prevention [CDC], 2025; Wincentak et al., 2017). À semelhança do que é descrito noutros contextos internacionais, no Brasil a VN tem sido enquadrada como um problema de saúde pública e como expressão de um continuum de violência de género que incide de forma desproporcionada sobre adolescentes e mulheres jovens (Andrade & Lima, 2018; Taquette & Monteiro, 2019). Dados da 10.ª Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, realizada pelo Instituto de Pesquisa DataSenado em parceria com o Observatório da Mulher contra a Violência, com 21 787 mulheres brasileiras, evidenciaram que uma proporção substancial relatou ter experienciado o primeiro episódio de agressão ainda na adolescência ou no início da idade adulta, com 13% a referir agressão inicial aos 14 anos, 17% entre os 15 e os 18 anos e 22% entre os 19 e os 24 anos (Senado Federal, 2023).
Esse fenómeno configura-se como uma forma de violência de género, na medida em que reflete assimetrias estruturais de poder entre homens e mulheres, ancoradas em normas de género e em scripts de masculinidade e feminilidade construídos socio-historicamente (Andrade & Lima, 2018; Caridade & Machado, 2013; Pacheco et al., 2024). Tais normas contribuem para a naturalização de comportamentos de controlo, ciúme excessivo e possessividade nas relações afetivo-sexuais, frequentemente reinterpretados como expressões de cuidado ou prova de amor, o que dificulta o reconhecimento desses comportamentos como abusivos (Cecchetto et al., 2016; Pacheco et al., 2024). Embora a VN assuma formas renovadas ao longo do tempo, incluindo modalidades mediadas por tecnologias digitais — como o abuso digital no namoro e a partilha não consensual de imagens íntimas —, permanece enraizada nas mesmas estruturas desiguais de género (De Ridder, 2019; Ferreira, 2023; Naezer & van Oosterhout, 2021). No estudo de Carvalhaes e Cárdenas (2021), por exemplo, observou-se que, quando fotos íntimas eram divulgadas no contexto do namoro, as jovens tendiam a ser moralmente condenadas por um suposto comportamento sexual inadequado, enquanto os rapazes eram valorizados como expressão de virilidade, reproduzindo uma dupla moral sexual assente em normas de género assimétricas (Carvalhaes & Cárdenas, 2021; Naezer & van Oosterhout, 2021). Em conjunto, esses resultados indicam que, apesar das mudanças nas formas de manifestação, a VN continua a atualizar e a reforçar desigualdades de género.
Na VN, podem ser identificados, em termos descritivos, dois papéis principais: (1) o agressor, que exerce controlo, agride e desrespeita o/a parceiro/a; e (2) a vítima, que sofre agressões repetidas e tende a tornar-se progressivamente subordinada às vontades do/a parceiro/a (Nascimento et al., 2018). Contudo, a literatura empírica tem demonstrado que, sobretudo em relações de adolescentes e adultos jovens, a VN frequentemente assume um padrão bidirecional ou de violência mútua, no qual ambos os parceiros podem ocupar, em momentos distintos ou simultâneos, as posições de agressores e de vítimas, em relacionamentos heteroafetivos e homoafetivos (Andrade et al., 2023a, 2023b; Barreira et al., 2014; Borges & Dell’Aglio, 2020b; Murta et al., 2016; Palmetto et al., 2013; Silva et al., 2021). Esse padrão de bidirecionalidade complexifica a compreensão do fenómeno e exige análises que considerem as dinâmicas relacionais, os processos de escalada de conflito, a interdependência entre vitimização e perpetração e as interações com normas de género, em vez de explicações centradas exclusivamente em características individuais (Andrade et al., 2023a; Barreira et al., 2014; Borges & Dell’Aglio, 2020b).
A VN manifesta-se por diferentes tipos de agressão, comummente agrupados em violência física, sexual, psicológica/emocional e comportamentos de perseguição ou controlo (stalking/monitorização), que podem ocorrer em interações presenciais ou mediadas por tecnologias digitais (García-Carpintero et al., 2018). A violência física envolve o uso intencional de força com potencial para provocar dor ou lesão, como empurrar, dar tapas ou socos, pontapear, puxar o cabelo ou utilizar objetos para ferir o/a parceiro/a (Borges & Dell’Aglio, 2020a). A violência sexual compreende atos de coerção, pressão ou uso de força para a realização de práticas sexuais indesejadas, contactos físicos com conotação sexual sem consentimento, beijos forçados e outras formas de violação da autodeterminação sexual (Costa & Miranda, 2020). A violência psicológica/emocional inclui intimidação, ameaças, humilhações, insultos, isolamento, controlo excessivo e condutas de desvalorização e culpabilização da vítima, frequentemente naturalizadas nas relações afetivo-sexuais e também exercidas por meio de redes sociais e dispositivos digitais (García-Carpintero et al., 2018; Martínez-Dorado et al., 2020). Comportamentos de perseguição e monitorização envolvem vigilância persistente, perseguição presencial, verificação reiterada de localização, mensagens ou redes sociais e outras formas intrusivas de controlo do quotidiano do/a parceiro/a (García-Carpintero et al., 2018).
Nos últimos anos, a VN em contextos virtuais tem-se destacado, frequentemente descrita na literatura como cyber dating abuse (CDA) ou ciberabuso no namoro. O CDA é geralmente conceptualizado como o uso de tecnologias de informação e comunicação (e.g., redes sociais, aplicações de mensagens instantâneas, serviços de geolocalização) para monitorizar, controlar, constranger, humilhar ou ameaçar o/a parceiro/a íntimo/a, podendo ocorrer tanto na vitimização quanto na perpetração (Caridade & Braga, 2019; Cavalcanti et al., 2020; Ferreira, 2023). Revisões e estudos empíricos indicam que o ciberabuso constitui uma forma emergente, porém amplamente prevalente, de VN entre adolescentes e adultos jovens, frequentemente articulada a outras formas presenciais de agressão (Ferreira, 2023; García-Carpintero et al., 2018). Em termos comportamentais, o ciberabuso inclui, entre outros, monitorizar de forma intrusiva o atual ou ex-parceiro em redes sociais, verificar palavras-passe e acessos sem consentimento, enviar e-mails ou mensagens com conteúdo ameaçador, exigir disponibilidade constante on-line e publicar fotos, vídeos ou comentários com o objetivo de expor, envergonhar ou ridicularizar a outra pessoa, em continuidade com padrões de cyberstalking nos relacionamentos românticos (Tannuss et al., 2024).
Portanto, a VN configura-se como um fenómeno social complexo, com repercussões significativas para a saúde e o bem-estar de adolescentes e adultos jovens. Estudos têm mostrado que a exposição à VN, na condição de vítima e/ou perpetrador, se associa a um amplo espectro de desfechos adversos, incluindo consequências físicas (e.g., lesões, hematomas, cortes, fraturas, traumatismos), psicológicas (e.g., medo, ansiedade, tristeza, baixa autoestima, dificuldades académicas, sintomatologia depressiva e de stress pós-traumático) e sociais (e.g., isolamento, estigmatização, conflitos familiares e rutura de redes de apoio) (Bittar & Nakano, 2017; Borges et al., 2020b; Exner-Cortens et al., 2013; García-Carpintero et al., 2018; Oliveira et al., 2021; Silva et al., 2021; Taquette & Monteiro, 2019; Wincentak et al., 2017). Evidências de estudos longitudinais sugerem ainda que experiências de VN na adolescência aumentam o risco de problemas de saúde mental persistentes, uso de substâncias, comportamentos sexuais de risco e continuidade da violência em relacionamentos íntimos na idade adulta, reforçando o seu enquadramento como problema de saúde pública prioritário (Exner-Cortens et al., 2013; Taquette & Monteiro, 2019; Wincentak et al., 2017).
Dada a relevância da VN como problema de saúde pública e de direitos humanos, torna-se fundamental sintetizar criticamente o conhecimento acumulado em contextos socioculturais específicos, particularmente em países marcados por desigualdades estruturais e elevada incidência de violência de género, como o Brasil. Revisões sistemáticas e meta-análises internacionais têm descrito a prevalência da VN, os seus fatores de risco e a eficácia de programas de prevenção em adolescentes e jovens, sobretudo em países de alta renda (e.g., Claussen et al., 2022; Duval et al., 2020; Piolanti et al., 2021; Quiñones & Navarro, 2022; Rubio-Garay et al., 2017). Contudo, essas sínteses incluem um número reduzido de estudos brasileiros e, em geral, não exploram em profundidade as particularidades estruturais, históricas e culturais do contexto brasileiro, nem os modos específicos pelos quais a VN se articula com desigualdades de género e dinâmicas relacionais.
No cenário nacional, observa-se, na última década, um crescimento expressivo da produção empírica sobre VN, abrangendo estudos de prevalência, investigações sobre correlatos individuais, relacionais e contextuais, e avaliações de intervenções com adolescentes e jovens (e.g., Murta et al., 2020; Taquette & Monteiro, 2019). Além disso, foi identificada uma revisão sistemática centrada especificamente nos comportamentos de pedido de ajuda de vítimas de VN (Pinheiro & Caridade, 2019), o que revela o interesse crescente em dimensões processuais e contextuais do fenómeno. Apesar desses avanços, permanece uma lacuna importante: ainda não se dispõe de uma revisão sistemática que integre, de maneira abrangente e focada no contexto brasileiro, (a) os fatores que predizem ou se associam à perpetração e à vitimização na VN, (b) as prevalências e padrões dos diferentes tipos de violência, incluindo modalidades presenciais e virtuais, e (c) as estratégias de enfrentamento e de pedido de ajuda adotadas por adolescentes e adultos jovens.
Dessa forma, o objetivo geral deste estudo é realizar uma revisão sistemática da literatura publicada entre 2013 e 2023 sobre VN em adolescentes e adultos jovens brasileiros. Especificamente, pretende-se: (1) identificar os fatores associados à perpetração e à vitimização na VN; (2) sintetizar as prevalências dos diferentes tipos de violência e as principais características metodológicas dos estudos incluídos; e (3) mapear as estratégias de enfrentamento e de pedido de ajuda descritas na literatura, de modo a subsidiar o desenvolvimento de intervenções culturalmente sensíveis e orientar futuras agendas de pesquisa em prevenção e promoção da saúde em relacionamentos afetivo-sexuais na adolescência e na adultez jovem.
Este estudo consistiu numa revisão sistemática da literatura sobre VN em adolescentes e adultos jovens brasileiros, modalidade de síntese reconhecida por oferecer elevado nível de evidência para subsidiar decisões em contextos públicos e privados (Galvão & Ricarte, 2019). A revisão seguiu as recomendações do PRISMA 2020 (Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses; Page et al., 2021), e o protocolo foi prospetivamente registado na base PROSPERO (CRD42024569918), assegurando transparência, rastreabilidade e rigor metodológico ao processo.
Esta revisão sistemática foi orientada pela seguinte pergunta de pesquisa: “Como a literatura científica tem caracterizado a violência no namoro em adolescentes e adultos jovens brasileiros?”. Em consonância com o enquadramento teórico e os objetivos do estudo, definiram-se ainda as seguintes questões específicas: (a) quais fatores se associam à perpetração e/ou vitimização na VN? (b) quais são os tipos e padrões de violência mais prevalentes, incluindo formas presenciais e mediadas por tecnologias digitais? (c) quais as estratégias de enfrentamento e de pedido de ajuda descritas para esse fenómeno?
Foram considerados artigos científicos empíricos, quantitativos, qualitativos ou de métodos mistos, que atendessem simultaneamente aos seguintes critérios: (a) apresentassem pesquisas avaliativas, estudos de intervenção, relatos de experiência sistematizados ou estudos de caso sobre VN; (b) tivessem sido realizados no Brasil; (c) tivessem sido publicados entre 2013 e 2023; (d) incluíssem amostras compostas por adolescentes e/ou adultos jovens brasileiros; e (e) estivessem redigidos em português, inglês ou espanhol.
O intervalo temporal de 2013 a 2023 foi definido por três razões principais. Primeiro, a produção empírica brasileira sobre violência no namoro em adolescentes e adultos jovens intensificou-se de forma expressiva nesse período, acompanhando a consolidação do tema como problema de saúde pública e de direitos humanos no país (e.g., Murta et al., 2013, 2016, 2020; Pinheiro & Caridade, 2019; Taquette & Monteiro, 2019). Segundo, trata-se de uma década em que se ampliou a investigação de modalidades presenciais e virtuais de violência, em consonância com a difusão de smartphones, redes sociais e outras tecnologias digitais na vida quotidiana dos jovens (e.g., Caridade & Braga, 2019; Cavalcanti et al., 2020; Ferreira, 2023). Terceiro, o intervalo de dez anos permite equilibrar abrangência e atualidade da evidência, focalizando estudos metodologicamente mais recentes e diretamente relevantes para o desenvolvimento de intervenções contemporâneas.
Para fins desta revisão, adolescência e adultez jovem foram operacionalizadas com base em proposições recentes da literatura internacional, considerando o intervalo aproximado de 10 a 24 anos como fase de transição entre infância e vida adulta (Sawyer et al., 2018). Assim, foram elegíveis estudos cujas amostras se enquadravam predominantemente nessa faixa etária ou que apresentavam resultados estratificados para participantes dentro desse intervalo.
Foram excluídos da revisão: (a) artigos cujo título, resumo ou texto completo não abordassem VN em adolescentes e jovens adultos; (b) estudos publicados exclusivamente sob a forma de revisões sistemáticas, meta-análises, teses, dissertações ou estudos de validação de instrumentos psicométricos; (c) estudos com amostras compostas predominantemente por participantes fora da faixa etária definida para adolescentes e adultos jovens; (d) estudos com amostras constituídas por participantes não brasileiros; e (e) publicações fora do período temporal delimitado (anteriores a 2013 ou posteriores a 2023).
A busca bibliográfica foi realizada entre janeiro de 2021 e junho de 2024 nas seguintes bases de dados: Scientific Electronic Library Online (SciELO), Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS), Portal de Periódicos Eletrónicos de Psicologia (PePSIC) e Portal de Periódicos CAPES. A seleção dessas bases fundamentou-se no seu reconhecimento científico, na abrangência multidisciplinar e na ampla cobertura de periódicos brasileiros e latino-americanos. As estratégias de busca utilizaram combinações dos descritores “violência” e “namoro” em português, aplicadas aos campos título, resumo e palavras-chave. Embora os descritores tenham sido definidos em língua portuguesa, a busca não se restringiu a artigos escritos exclusivamente nesse idioma. Foram também incluídos estudos publicados noutros idiomas desde que apresentassem resumo contendo termos em português ou que abordassem a temática da violência no namoro em amostras brasileiras, garantindo assim a abrangência e a inclusão de produções relevantes sobre o fenómeno.
Os registos identificados nas bases de dados foram exportados e organizados na plataforma Rayyan (Qatar Computing Research Institute) para gestão e triagem das referências. A seleção dos estudos foi conduzida de forma independente por três juízas (A.D.G.T., S.J.S.O.S. e D.G.N.D.), com base nos critérios de elegibilidade previamente definidos. Inicialmente, foram examinados títulos e resumos dos registos não duplicados. Em casos de dúvida quanto à elegibilidade, procedeu-se à leitura do texto completo. Divergências entre as avaliadoras foram resolvidas por discussão e, quando necessário, com a participação de uma quarta pesquisadora (J.L.F.S.). Para os estudos considerados elegíveis, realizou-se a leitura integral e extraiu-se informação sobre autores, ano de publicação, objetivos, delineamento, participantes, instrumentos utilizados e principais resultados relacionados com os objetivos desta revisão.
Devido à heterogeneidade dos delineamentos, dos instrumentos utilizados e dos indicadores de resultado, não foi realizada meta-análise. Inicialmente, procedeu-se a uma caracterização descritiva dos estudos incluídos, com cálculo de frequências absolutas e relativas para ano de publicação, área temática dos periódicos, região de origem das amostras, delineamento e principais estratégias de recolha de dados. Em seguida, optou-se por uma síntese narrativa organizada em função dos objetivos específicos da revisão. Os resultados foram agrupados em três eixos principais: (a) fatores associados à perpetração e/ou vitimização na violência no namoro; (b) prevalências e padrões dos diferentes tipos de violência, incluindo modalidades presenciais e virtuais; e (c) estratégias de enfrentamento e de pedido de ajuda. Para cada eixo, sintetizaram-se as características metodológicas centrais (tipo de delineamento, contexto de recrutamento, tamanho e composição da amostra, instrumentos utilizados) e os principais achados empíricos relativos à violência no namoro em adolescentes e adultos jovens brasileiros.
A busca inicial nas bases de dados Portal Periódicos CAPES, SciELO, LILACS e PePSIC identificou 647 registos (Figura 1). Após a exclusão de 49 registos duplicados, permaneceram 598 registos para triagem de títulos e resumos. Desses, 210 foram excluídos por não atenderem aos critérios de elegibilidade com base nessas informações iniciais. Assim, 388 registos foram avaliados quanto à elegibilidade, dos quais 361 foram excluídos por não abordarem a violência no namoro em adolescentes e adultos jovens. Ao final desse processo, 27 artigos atenderam a todos os critérios de inclusão e foram incorporados à síntese qualitativa. Esses estudos foram lidos na íntegra, e as informações relevantes foram extraídas e organizadas segundo os eixos de análise definidos nos Métodos.
Os 27 artigos selecionados para análise foram categorizados de acordo com três critérios principais (Tabela 1): (1) caracterização geral das pesquisas (ano de publicação, área temática do periódico, local de origem do estudo e idioma de publicação); (2) delineamento do estudo (delimitação do objeto de estudo e abordagem metodológica); e (3) categorias de análise derivadas dos resultados empíricos (fatores de risco e correlatos da VN, prevalência e padrões dos tipos de violência e estratégias de enfrentamento e pedido de ajuda em situações de VN).
Tabela 1. Síntese dos Estudos Incluídos na Revisão (N = 27)
| # | Autor(es) (Ano) | Objetivo principal | Delineamento e instrumentos | Participantes | Principais Resultados |
|---|---|---|---|---|---|
| 1 | Andrade et al. (2023a) | Investigar violência digital em relacionamentos de namoro de adolescentes. | Qualitativo; entrevistas individuais, diário de campo e questionários. | Adolescentes 15–19 anos. | Violências psicológica, digital e física são amplamente naturalizadas; adolescentes relatam experiências de violência na família, escola e território desde a infância. |
| 2 | Andrade et al. (2023b) | Analisar transmissão intergeracional da violência e atravessamentos de género no namoro. | Qualitativo; entrevistas semiestruturadas e questionário biossociodemográfico. | Adolescentes 16–18 anos. | Relações familiares são marcadas por violência física e psicológica como forma de resolução de conflitos; no namoro, adolescentes legitimam violência psicológica (monitorização de redes, controlo do vestuário). |
| 3 | Barreira et al. (2013) | Estimar prevalência de perpetração de violência física e psicológica e identificar fatores associados. | Quantitativo transversal; CADRI. | Adolescentes 15–19 anos, escolas públicas e privadas de Recife. | Elevada prevalência de violência psicológica (82,8%) e física (19,9%); exposição à violência na família, entre pares e na comunidade aumenta probabilidade de perpetrar VN. |
| 4 | Barreira et al. (2014) | Analisar direcionalidade da violência física e psicológica no namoro. | Quantitativo transversal; CADRI. | Adolescentes 15–19 anos, escolas públicas e privadas. | Predomínio de violência bidirecional; violência física é a mais prevalente; rapazes relatam mais violência relacional, raparigas mais violência física. |
| 5 | Bittar e Nakano (2017) | Compreender significados atribuídos às relações afetivas e aos conflitos/violência no namoro. | Qualitativo; grupos focais e entrevistas individuais. | Adolescentes 15–19 anos, 2.º ano do Ensino Médio, escola pública. | Ciúmes funcionam como ferramenta de controlo e dominação nas relações afetivo-sexuais, expressando desigualdades de género e naturalização da VN. |
| 6 | Borges e Dell’Aglio (2020a) | Investigar associação entre maus-tratos na infância e perpetração de violência física no namoro. | Quantitativo transversal; CADRI e questionários. | Adolescentes 14–19 anos. | Histórico de maus-tratos na infância associa-se a níveis mais elevados de perpetração de VN, reforçando a hipótese de continuidade intergeracional da violência. |
| 7 | Borges e Dell’Aglio (2020b) | Analisar papel de esquemas iniciais desadaptativos em vítimas de VN. | Quantitativo; CADRI e escalas de depressão, ansiedade e stress. | Adolescentes 14–19 anos. | Vítimas, sobretudo raparigas, apresentam mais sintomas depressivos, ansiosos e de stress e escores elevados em esquemas desadaptativos (abandono, desconfiança, busca de aprovação, grandiosidade, autossacrifício, pessimismo). |
| 8 | Borges et al. (2020a) | Investigar padrões de perpetração e perceções da VN. | Quantitativo; CADRI, questionário sociodemográfico e questionário de perceções. | Adolescentes 14–19 anos, escolas públicas e privadas. | Violência psicológica é mais frequente (91,1%); rapazes relatam mais perpetração sexual e raparigas mais violência física; muitos adolescentes têm dificuldade em reconhecer comportamentos abusivos. |
| 9 | Borges et al. (2020b) | Fornecer subsídios para intervenções preventivas em VN. | Quantitativo; CADRI. | Adolescentes 14–19 anos, escolas públicas e privadas. | Maus-tratos psicológicos na infância aumentam probabilidade de perpetrar violência psicológica no namoro, forma mais prevalente de VN na amostra. |
| 10 | Brancaglioni e Fonseca (2016) | Analisar violência por parceiro íntimo na adolescência sob a perspetiva de género e geração. | Quantitativo; CADRI. | Adolescentes 15–19 anos. | Níveis muito elevados de perpetração (91%) e vitimização (90,1%); construções de género e assimetrias geracionais aumentam vulnerabilidade à VN. |
| 11 | Cavaler et al. (2021) | Problematizar violências em relações amorosas na juventude e apresentar rede de proteção. | Estudo misto; grupos psicoeducativos. | Jovens 14–19 anos. | Jovens associam violência sobretudo a agressões físicas e psicológicas; desigualdade de género e ciúmes são confundidos com amor, contribuindo para naturalização de comportamentos abusivos. |
| 12 | Cecchetto et al. (2016) | Investigar visões de adolescentes do sexo masculino sobre VN. | Qualitativo; entrevistas semiestruturadas e grupos focais. | Adolescentes do sexo masculino 15–19 anos. | Significados da VN refletem papéis de género; agressões físicas de raparigas são toleradas; ciúmes, traição e “fofocas” são principais desencadeadores de violência psicológica e física. |
| 13 | Costa e Miranda (2020) | Analisar experiências de vitimização sexual no namoro e seus impactos. | Qualitativo; entrevistas semiestruturadas. | Cinco adolescentes 16–17 anos, Ensino Médio. | Abusos sexuais no namoro são muitas vezes precedidos por experiências de violência noutros contextos; efeitos incluem sofrimento físico, mental, emocional e social (medo, culpa, vergonha, isolamento). |
| 14 | Mateus et al. (2020) | Investigar compreensão de jovens sobre saúde, sexualidade e VN. | Qualitativo; entrevistas semiestruturadas. | Oito jovens 16–18 anos, Ensino Médio de escola pública. | VN é compreendida como forma de dominar o parceiro; comportamentos abusivos são naturalizados e frequentemente confundidos com ciúmes ou demonstrações de amor. |
| 15 | Melo et al. (2022) | Analisar conhecimento de jovens universitários acerca da VN. | Quantitativo; questionário sobre violência e escala de depressão. | Universitários 20–24 anos. | Ciúmes excessivos são vistos como motivo central de VN; apesar de reconhecerem violência sexual, muitos jovens relatam-na como prática perpetrada. |
| 16 | Murta et al. (2013) | Avaliar efeitos de intervenção preventiva sobre VN e crenças sexistas/homofóbicas. | Estudo misto quasi-experimental; questionários estruturados e formulários abertos. | Adolescentes 15–18 anos, 1.º ano do Ensino Médio de escola pública. | Após a intervenção, reduzem-se crenças sexistas hostis e homofóbicas explícitas, diminuem intenções de usar violência e aumentam estratégias de negociação. |
| 17 | Murta et al. (2016) | Avaliar efeitos de intervenção sobre intenções de enfrentamento da VN. | Estudo misto quasi-experimental; escalas, instrumento qualitativo e formulários abertos. | Adolescentes 15–17 anos, 1.º ano do Ensino Médio, escola pública. | Redução de crenças sobre restrição emocional masculina; relatos qualitativos indicam desenvolvimento de habilidades interpessoais e maior reflexão sobre VN. |
| 18 | Murta et al. (2019) | Examinar vivências de intimidade nas relações de namoro. | Qualitativo; estudo de casos múltiplos, entrevistas semiestruturadas. | Três jovens 16–23 anos. | Alta intimidade associa-se a apoio social e sensibilidade às necessidades do parceiro; baixa intimidade relaciona-se a falta de suporte, desregulação emocional e estratégias negativas de resolução de conflitos. |
| 19 | Oliveira et al. (2014) | Avaliar perpetração de violência psicológica e relação com violência noutros contextos. | Quantitativo; CADRI e CTS. | Adolescentes 15–19 anos, 2.º ano do Ensino Médio. | Maior perpetração de violência psicológica no namoro associa-se à experiência de violência psicológica entre pais, irmãos, amigos e em relações anteriores. |
| 20 | Oliveira et al. (2016) | Examinar como questões de género permeiam a violência física perpetrada. | Estudo misto; CADRI, entrevistas semiestruturadas e grupos focais. | Adolescentes 15–19 anos. | Infidelidade e ciúme são gatilhos centrais de conflitos; humilhações e agressões são percebidas como graves; perpetradores aceitam mais atos violentos. |
| 21 | Oliveira et al. (2021) | Analisar perceções de adolescentes em alta vulnerabilidade social sobre relações íntimas violentas. | Qualitativo; grupo focal. | Adolescentes 8.º–9.º ano do Ensino Fundamental. | Normas tradicionais de género sustentam posse e controlo, sobretudo por rapazes; ciúme é principal fator de violência; tecnologias digitais reforçam controlo e monitorização. |
| 22 | Santos e Murta (2019) | Examinar viabilidade de intervenção baseada em pares para prevenção da VN. | Estudo misto; diário de campo, formulário e escala de satisfação. | Adolescentes 14–19 anos, Ensino Médio. | Intervenção bem aceite pelos adolescentes; limitações logísticas (duração, horários escolares) dificultam implementação plena e apontam desafios para escalonamento. |
| 23 | Santos et al. (2019) | Avaliar eficácia de intervenção baseada em pares e espectadores para VN. | Quantitativo experimental pré–pós-teste; escalas padronizadas. | Adolescentes 14–17 anos. | A intervenção não produziu mudanças significativas em atitudes, comportamentos ou empatia relacionados com a VN, indicando necessidade de aperfeiçoamento dos componentes preventivos. |
| 24 | Silva et al. (2021) | Analisar representações sociais de adolescentes sobre VN. | Estudo misto; associação livre de palavras, CADRI e questionário sociodemográfico. | Adolescentes 14–18 anos, escolas públicas. | VN é associada a ciúmes, discussões e desrespeito; violência psicológica é a mais frequente, tanto na perpetração (70%) quanto na vitimização (67%). |
| 25 | Silva et al. (2020) | Apreender representações sociais de adolescentes acerca da VN. | Estudo misto; entrevistas semiestruturadas (e outros procedimentos qualitativos). | Adolescentes 14–18 anos. | VN abrange violência física, psicológica e verbal; ciúme é visto como principal motivador; procura de apoio em familiares e amigos emerge como estratégia de enfrentamento. |
| 26 | Souza et al. (2022) | Compreender manifestação da VN em adolescentes do sexo feminino em internação socioeducativa. | Qualitativo; observação, registos de conversas e cartas. | Adolescentes socioeducandas 15–18 anos. | VN aparece em namoros passados e atuais; diferenças etárias marcam relações assimétricas, nas quais poder do parceiro, ciúmes e possessividade justificam controlo e violência física/psicológica. |
| 27 | Veríssimo et al. (2022) | Investigar prevalência e fatores relacionados com a VN em adolescentes. | Quantitativo; CADRI e questões sociodemográficas. | Adolescentes 12–19 anos. | Vitimização psicológica é a mais frequente (81,8%), seguida da sexual (36,4%) e física (31,9%); rapazes relatam mais vitimização física, raparigas mais psicológica e sexual. |
Nota. CADRI = Conflict in Adolescent Dating Relationships Inventory (Inventário de Conflitos nas Relações de Namoro); CTS = Conflict Tactics Scale.
No que se refere ao ano de publicação, verificou-se que o ano de 2020 concentrou o maior número de estudos (25,9%), enquanto, nos anos de 2015 e 2018, não foram identificadas publicações sobre a temática. Quanto à área temática dos periódicos, predominaram revistas de Ciências Humanas e Sociais (59,3%), seguidas por periódicos de Ciências da Saúde (33,3%) e de Ciências Interdisciplinares (7,4%). Em relação ao local de origem, foram identificados estudos conduzidos em diferentes regiões do Brasil, sendo mais frequentes amostras da região Nordeste (44,4%) e do Centro-Oeste (40,7%), seguidas das regiões Sul (37,0%), Sudeste (18,5%) e Norte (11,1%). Cabe ressaltar que alguns estudos abrangeram mais de uma região, o que explica a soma de percentuais superior a 100%. O idioma maioritário era o português, com 18 artigos (70,4%) e, em seguida, o inglês, com oito artigos (29,6%).
Em relação ao delineamento, todos os artigos eram estudos empíricos, em consonância com os critérios de inclusão. Observou-se a utilização de abordagens quantitativas (40,7%), qualitativas (33,3%) e mistas (25,9%). Quanto aos instrumentos de recolha de dados, destacou-se o uso de instrumentos psicométricos (51,9%), em especial o Inventário de Conflitos nas Relações de Namoro (Conflict in Adolescent Dating Relationships Inventory), aplicado em 78,6% dos estudos. Outros métodos de recolha incluíram entrevistas semiestruturadas (33,3%), questionários estruturados (22,2%) e grupos focais (18,5%), sendo que alguns estudos empregaram mais de um procedimento de recolha de dados.
No primeiro eixo de análise, relativo aos fatores associados à perpetração e/ou vitimização na VN, os estudos incluídos evidenciaram, de forma convergente, a influência de condições familiares, socioculturais e individuais. No contexto familiar e de socialização precoce, a exposição à violência — seja na forma de violência interparental, de práticas educativas violentas ou de maus-tratos na infância — mostrou-se associada a maiores níveis de envolvimento em VN (vitimização e/ou perpetração) na adolescência e na adultez jovem (Barreira et al., 2013; Borges & Dell’Aglio, 2020a; Oliveira et al., 2014; Souza et al., 2022; Veríssimo et al., 2022). Resultados de estudos qualitativos reforçam essa continuidade, descrevendo relações familiares marcadas por violência física e psicológica como contexto de aprendizagem de padrões agressivos posteriormente reproduzidos nas relações de namoro (Andrade et al., 2023b).
Fatores socioculturais também emergiram como centrais na explicação da VN, em particular normas de género tradicionais, ideologias machistas e a naturalização de comportamentos de controlo, ciúme e possessividade. Em diferentes estudos, adolescentes e jovens relataram que ciúmes, infidelidade e “fofocas” sobre a conduta sexual constituem importantes desencadeadores de conflitos e agressões, frequentemente enquadrados como “prova de amor” ou expressão de masculinidade (Bittar & Nakano, 2017; Brancaglioni & Fonseca, 2016; Cavaler et al., 2021; Cecchetto et al., 2016; Oliveira et al., 2021; Souza et al., 2022). Nessas narrativas, desigualdades de género e assimetrias geracionais aparecem como elementos que aumentam a vulnerabilidade de adolescentes, sobretudo das raparigas, à vivência e legitimação da VN (Brancaglioni & Fonseca, 2016; Carvalhaes & Cárdenas, 2021; Oliveira et al., 2021).
No plano individual, os estudos apontaram para a relevância de características pessoais e indicadores de funcionamento psicológico. Investigações quantitativas mostraram que experiências de maus-tratos na infância e a presença de esquemas iniciais desadaptativos (e.g., abandono, desconfiança, busca de aprovação, autossacrifício) se associam a níveis mais elevados de perpetração e vitimização na VN, bem como a maior sintomatologia depressiva, ansiosa e de stress entre vítimas, especialmente raparigas (Borges & Dell’Aglio, 2020a, 2020b). Estudos qualitativos complementam esse quadro, documentando sofrimento emocional, sentimentos de medo, culpa e vergonha, além de dificuldades em reconhecer situações abusivas e em mobilizar estratégias de enfrentamento mais protetoras (Costa & Miranda, 2020; Mateus et al., 2020; Melo et al., 2022; Silva et al., 2020, 2021). Em alguns casos, comportamentos de ciúme intenso e de monitorização do/a parceiro/a — inclusive por meio de redes sociais e outros dispositivos digitais — foram descritos como práticas recorrentes entre jovens envolvidos em relações violentas (Andrade et al., 2023a; Oliveira et al., 2021; Souza et al., 2022).
Os estudos incluídos indicaram que diferentes formas de abuso frequentemente coexistem num mesmo relacionamento de namoro, tanto na perspetiva da vitimização quanto da perpetração. Em diversas amostras, adolescentes e jovens relataram envolvimento simultâneo em violência psicológica/emocional, física e, em menor escala, sexual, seja como autores, seja como vítimas (Barreira et al., 2013, 2014; Brancaglioni & Fonseca, 2016; Borges & Dell’Aglio, 2020a, 2020b; Borges et al., 2020a, 2020b; Silva et al., 2020, 2021; Veríssimo et al., 2022). De forma consistente, a violência psicológica/emocional foi o tipo mais frequentemente reportado, quer de forma isolada, quer em coocorrência com outras formas de agressão, alcançando proporções elevadas de vitimização e perpetração nas diferentes amostras analisadas (Barreira et al., 2013; Brancaglioni & Fonseca, 2016; Borges et al., 2020a; Silva et al., 2021; Veríssimo et al., 2022).
A violência física, embora em geral menos prevalente do que a psicológica/emocional, foi descrita em percentuais expressivos, sobretudo em contextos marcados por altos níveis de conflito nas relações íntimas (Barreira et al., 2013, 2014; Brancaglioni & Fonseca, 2016; Borges & Dell’Aglio, 2020a; Borges et al., 2020a; Veríssimo et al., 2022). Alguns estudos salientaram que episódios de agressão física e sexual tendem a ocorrer num contexto mais amplo de agressões psicológicas, ameaças e comportamentos de controlo, o que sugere que a VN raramente se manifesta de forma unidimensional (Borges & Dell’Aglio, 2020a, 2020b; Borges et al., 2020a, 2020b; Costa & Miranda, 2020; Souza et al., 2022). Em particular, experiências de violência sexual no namoro foram relatadas por adolescentes do sexo feminino como parte de dinâmicas relacionais coercivas, frequentemente antecedidas por outras formas de abuso (Costa & Miranda, 2020; Souza et al., 2022).
No que se refere às formas de violência mediadas por tecnologias digitais, parte dos estudos analisados descreveu elevada frequência de comportamentos de monitorização, invasão de privacidade e controlo em redes sociais e aplicações de mensagens, frequentemente articulados a ciúmes intensos e à ideia de posse do/a parceiro/a (Andrade et al., 2023a; Bittar & Nakano, 2017; Cavaler et al., 2021; Oliveira et al., 2021). Nessas investigações, práticas como verificação de mensagens, exigência de palavras-passe, vigilância de perfis on-line e restrições sobre interações virtuais foram relatadas como componentes centrais de relações de namoro marcadas por VN, reforçando a necessidade de considerar conjuntamente modalidades presenciais e digitais na caracterização dos padrões de violência.
Em relação às estratégias de enfrentamento, os estudos incluídos apontaram para o uso concomitante de estratégias consideradas mais adaptativas e de estratégias potencialmente desadaptativas perante a violência no namoro. Entre as estratégias tidas como mais positivas, destacaram-se o diálogo, a comunicação assertiva e a tentativa de negociar limites e mudanças de comportamento com o/a parceiro/a, bem como a busca de soluções conjuntas para conflitos relacionais (Murta et al., 2013, 2016, 2019; Santos & Murta, 2019; Santos et al., 2019). Em intervenções preventivas, observou-se aumento do recurso a estratégias de negociação e redução da aceitação de comportamentos violentos nas relações de namoro (Murta et al., 2013, 2016; Santos et al., 2019).
Alguns estudos evidenciaram ainda o recurso à rede informal de apoio — sobretudo amigos e, em menor grau, familiares — como estratégia de enfrentamento e de pedido de ajuda, seja para obter aconselhamento, validação emocional ou suporte prático (Costa & Miranda, 2020; Mateus et al., 2020; Silva et al., 2020). Em geral, o apoio de pares foi mais frequentemente mencionado do que o apoio familiar, sendo este último por vezes descrito como dificultado por relações marcadas por conflitos, baixa confiança ou receio de reações negativas (Costa & Miranda, 2020; Silva et al., 2020).
Paralelamente, foram identificadas estratégias de enfrentamento consideradas negativas ou de risco, como minimizar ou normalizar episódios de violência, permanecer em relações marcadas por agressões e utilizar estratégias de resolução de conflitos baseadas em confronto ou escalada do conflito (Murta et al., 2019). Em relatos de vítimas de abuso sexual no namoro, surgiram ainda sentimentos de medo, culpa, vergonha e isolamento social, associados a dificuldades em falar sobre a situação e em mobilizar ajuda, o que pode contribuir para a manutenção de relações violentas (Costa & Miranda, 2020; Souza et al., 2022).
Entre os estudos brasileiros incluídos nesta revisão, a procura de ajuda formal junto de serviços especializados ou autoridades policiais foi pouco mencionada de forma espontânea pelos participantes, sugerindo que, no conjunto analisado, estratégias informais de enfrentamento e apoio tendem a ser mais salientes do que o acionamento de recursos institucionais de proteção.
A presente revisão sistemática analisou as investigações sobre VN em adolescentes e adultos jovens brasileiros, com o objetivo de compreender como o fenómeno tem sido caracterizado na última década, em termos de fatores associados, prevalências e estratégias de enfrentamento. Em conjunto, os 27 estudos incluídos evidenciam: (a) prevalências elevadas de VN, com predominância da violência psicológica/emocional e frequente coocorrência com formas físicas e, em menor escala, sexuais; (b) forte associação entre envolvimento em VN e exposição prévia à violência familiar, incluindo violência interparental, práticas educativas violentas e maus-tratos na infância; (c) papel central de normas de género assimétricas, ideologias machistas e naturalização de comportamentos de controlo, ciúmes e possessividade; e (d) predomínio de estratégias informais de enfrentamento, centradas sobretudo em amigos e na tentativa de negociação relacional, coexistindo com estratégias de risco, como minimização, permanência em relações violentas e isolamento. Os estudos revelam ainda uma produção concentrada em periódicos das Ciências Humanas e Sociais, com uso frequente de delineamentos transversais, medidas de autorrelato e, no campo quantitativo, forte presença do CADRI como instrumento de avaliação da VN.
Os resultados desta revisão devem ser interpretados à luz do contexto brasileiro, marcado por elevados índices de violência de género e letalidade feminina associada a parceiros íntimos. Dados da 10.ª Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher indicam que, entre 2017 e 2019, as mulheres brasileiras passaram a percecionar um aumento da violência doméstica e familiar, com o reconhecimento do problema a subir de 69% para 82% (Senado Federal, 2023). Nesse mesmo inquérito, uma proporção substancial de mulheres relatou ter experienciado o primeiro episódio de agressão ainda na adolescência ou no início da idade adulta, reforçando a importância de focalizar a VN como etapa inicial de um continuum de violência por parceiro íntimo.
No conjunto dos estudos incluídos, destaca-se a liderança das regiões Nordeste e Centro-Oeste na produção científica sobre VN, seguida pelas regiões Sul, Sudeste e, em menor proporção, Norte. Essa distribuição regional pode relacionar-se às elevadas taxas de mortalidade por homicídios femininos cometidos por parceiros ou ex-parceiros românticos, particularmente altas em alguns estados do Nordeste e Centro-Oeste e superiores à média nacional (Meira et al., 2023), bem como à perceção de contextos fortemente marcados por ideologias machistas (Senado Federal, 2023), que podem simultaneamente aumentar a ocorrência de violência e estimular maior interesse científico sobre o tema. A predominância de publicações em português e em periódicos nacionais, por sua vez, reforça a relevância dessa produção para o contexto brasileiro, mas também aponta para desafios de circulação internacional do conhecimento produzido.
Os achados desta revisão convergem, em vários aspetos, com revisões sistemáticas e meta-análises internacionais sobre VN em adolescentes e jovens, predominantemente conduzidas em países de alta renda. Esses estudos de síntese apontam prevalências significativas de VN, com especial predominância de formas psicológicas e emocionais, frequentemente coocorrentes com violência física e sexual (Claussen et al., 2022; Duval et al., 2020; Piolanti et al., 2021; Quiñones & Navarro, 2022; Rubio-Garay et al., 2017; Wincentak et al., 2017). Evidências longitudinais sugerem, ainda, que a experiência de VN na adolescência se associa a problemas de saúde mental persistentes, uso de substâncias, comportamentos sexuais de risco e continuidade da violência em relacionamentos íntimos na vida adulta (Exner-Cortens et al., 2013; Wincentak et al., 2017), em linha com o enquadramento desta revisão da VN como problema de saúde pública prioritário.
Do ponto de vista dos fatores associados, a associação entre exposição à violência familiar, normas tradicionais de género e envolvimento em VN observada nos estudos brasileiros replica padrões reportados em amostras internacionais, nas quais a adesão a normas de masculinidade hegemónica, a legitimação da agressão como resposta a conflitos e a dupla moral sexual emergem como preditores robustos de VN (Barroso-Corroto et al., 2024; Fernández-Antelo et al., 2020; Karlsson et al., 2015). De modo semelhante, investigações internacionais têm documentado a forte relação entre ciúmes românticos, controlo e comportamentos de cyber dating abuse entre adolescentes, convergente com os achados brasileiros sobre o papel central do ciúme, da monitorização digital e da naturalização de práticas de vigilância on-line como parte da VN (García-Carpintero et al., 2018; Quiroz et al., 2024).
Adicionalmente, dados recentes do Estudo Nacional sobre Violência no Namoro, realizado com jovens brasileiros, indicaram que 65,2% dos participantes que relataram já ter estado ou estar num relacionamento de namoro tinham experienciado pelo menos um tipo de violência, com predominância de violência psicológica em comparação com violência física e sexual (Magalhães et al., 2024). Embora esse estudo não integre formalmente a amostra desta revisão (por ter sido publicado após o período definido), os seus resultados são consistentes com o padrão de predominância da violência psicológica/emocional identificado nos 27 artigos incluídos, reforçando a validade externa dos achados.
Os resultados relativos às estratégias de enfrentamento sugerem que adolescentes e adultos jovens recorrem predominantemente a estratégias informais, como o apoio de amigos, o diálogo com o/a parceiro/a e as tentativas de negociação relacional, enquanto o acionamento de recursos formais (por exemplo, serviços especializados, redes de proteção, autoridades policiais) é pouco referido. A baixa visibilidade da denúncia formal nos estudos da amostra pode refletir barreiras múltiplas, incluindo medo de retaliação, desconfiança nas instituições, vergonha, naturalização da violência e dificuldades de comunicação com adultos de referência. Em consonância com a revisão sistemática de Pinheiro e Caridade (2019), que se debruça especificamente sobre comportamentos de pedido de ajuda em VN, os achados sugerem que, mesmo quando há reconhecimento de abuso, muitos jovens permanecem dependentes de redes informais de suporte, o que pode limitar o acesso a respostas mais estruturadas de proteção.
A coexistência de estratégias consideradas adaptativas (diálogo, procura de apoio, tentativa de negociação) e de estratégias de risco (minimização das agressões, permanência em relações violentas, revide, isolamento social) indica um quadro de ambivalência, no qual os jovens oscilam entre esforços para transformar a relação e mecanismos que, na prática, podem contribuir para a manutenção do ciclo da violência. Resultados qualitativos, em particular, mostram que sentimentos de medo, culpa e vergonha, bem como a perceção de que a violência decorre de “ciúmes” ou “amor”, podem dificultar a rutura da relação abusiva e a mobilização de ajuda mais efetiva (Costa & Miranda, 2020; Mateus et al., 2020; Souza et al., 2022). Essas dinâmicas reforçam a importância de intervenções que trabalhem competências socioemocionais, literacia em relacionamentos saudáveis e rotas seguras de denúncia e apoio.
Tomados em conjunto, os achados desta revisão sugerem que programas de prevenção da VN direcionados a adolescentes e adultos jovens brasileiros devem adotar abordagens multissistémicas, articulando intervenções nos planos individual, relacional, comunitário e sociocultural. Em particular, os resultados apontam para a importância de: (a) problematizar normas de género e scripts culturais que legitimam o controlo, o ciúme e a agressão nas relações de namoro, incluindo a naturalização da monitorização digital; (b) considerar histórias de violência familiar, maus-tratos na infância e outras experiências adversas como fatores de risco desenvolvimentais relevantes; e (c) promover o uso seguro e crítico de tecnologias digitais, com reconhecimento explícito do cyber dating abuse como forma de violência.
Além disso, a forte dependência de redes informais de apoio e a baixa visibilidade da denúncia formal indicam a necessidade de fortalecer políticas e serviços especializados, com vias de acesso que sejam percebidas pelos jovens como legitimadas, seguras e culturalmente sensíveis. Intervenções em contexto escolar, comunitário e universitário, articuladas com políticas de combate à violência de género e de proteção de crianças e adolescentes, parecem particularmente promissoras, sobretudo quando integradas a programas de educação sexual abrangente e promoção de competências socioemocionais. Avaliações rigorosas de programas preventivos brasileiros já implementados (e.g., Murta et al., 2013, 2016; Santos & Murta, 2019; Santos et al., 2019) podem fornecer evidências adicionais sobre componentes eficazes e estratégias de implementação viáveis.
Esta revisão também evidenciou lacunas importantes na literatura nacional sobre VN. Não foram identificados, entre os estudos incluídos, trabalhos que se debruçassem especificamente sobre a VN entre jovens LGBTQIA+ ou que examinassem de forma sistemática interseções entre género, raça/cor e classe social nas experiências de violência e nas estratégias de enfrentamento, apesar da relevância dessas dimensões no contexto brasileiro. Há igualmente escassez de estudos longitudinais que permitam compreender trajetórias de continuidade ou descontinuidade da violência ao longo do ciclo de vida, bem como de investigações que articulem de forma mais sistemática contextos escolares, comunitários e de políticas públicas.
Pesquisas futuras devem, portanto, investir em delineamentos longitudinais e mistos, incorporar amostras diversificadas quanto a orientações sexuais, identidades de género, raça/cor e contextos regionais, e explorar mais profundamente o papel de fatores escolares, comunitários e institucionais na prevenção da VN. Estudos de avaliação de programas preventivos, incluindo intervenções digitais, abordagens baseadas em competências socioemocionais e intervenções centradas em pares e espectadores, também se revelam prioritários para o contexto brasileiro, em consonância com evidências internacionais emergentes sobre prevenção de VN.
Apesar dos seus contributos, esta revisão apresenta limitações que devem ser consideradas na interpretação dos resultados. Em primeiro lugar, foram utilizadas apenas quatro bases de dados (SciELO, LILACS, PePSIC e Portal de Periódicos CAPES), o que pode ter levado à perda de estudos relevantes indexados noutras bases internacionais, como Scopus, MEDLINE/PubMed, PsycINFO ou bases editoriais específicas. Em segundo lugar, a estratégia de busca utilizou combinações dos descritores “violência” e “namoro”, o que, dependendo da forma como os termos foram indexados, pode ter limitado a identificação de estudos com amostras brasileiras publicados com outros descritores ou exclusivamente em inglês. Em terceiro lugar, embora os descritores utilizados fossem em português, a busca possibilitou a recuperação de estudos em inglês, sendo incorporados oito artigos neste idioma (Barreira et al., 2014; Bittar & Nakano, 2017; Borges & Dell’Aglio, 2020b; Borges et al., 2020; Oliveira et al., 2021; Santos & Murta, 2019; Santos et al., 2019; Silva et al., 2021) cujo título, resumo e/ou palavras-chave apresentavam os descritores definidos “violência” e “namoro”. Em quarto lugar, a inclusão exclusiva de estudos realizados no Brasil e publicados entre 2013 e 2023, embora justificada pelo foco contextual e pela atualidade da evidência, restringe a possibilidade de comparações temporais mais longas e de integração de dados de outros países lusófonos. Em quinto lugar, não foi realizada avaliação formal da qualidade metodológica ou do risco de viés dos estudos incluídos, o que limita a possibilidade de ponderar a robustez relativa das evidências; essa decisão decorreu da heterogeneidade dos delineamentos e da ênfase descritiva da síntese, mas deve ser considerada na leitura dos resultados. Por fim, a heterogeneidade dos estudos quanto a amostras, instrumentos e indicadores de resultado impediu a realização de meta-análises, restringindo a síntese a abordagens narrativas.
Mesmo consideradas essas limitações, a presente revisão sistemática oferece um panorama abrangente e atualizado da violência no namoro em adolescentes e adultos jovens brasileiros, identificando fatores associados, padrões de prevalência e estratégias de enfrentamento descritas na literatura nacional entre 2013 e 2023. Os resultados reforçam a necessidade de reconhecer a VN como um problema de saúde pública e de direitos humanos, inscrito num continuum de violência de género, e de desenvolver respostas integradas de prevenção, intervenção e políticas públicas sensíveis às especificidades socioculturais do contexto brasileiro. Ao sintetizar evidências sobre fatores de risco, padrões de violência e modos de enfrentamento, esta revisão pode contribuir para orientar a conceção de programas preventivos culturalmente informados, o aperfeiçoamento de serviços de proteção e a definição de agendas de pesquisa voltadas para a promoção de relacionamentos afetivo-sexuais mais saudáveis na adolescência e na adultez jovem.
Agradecimentos: Agradecemos à seguinte instituição: Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), pela concessão das bolsas de Doutoramento à primeira autora e de Mestrado à terceira e quinta autoras.
Conflito de interesses: Os autores não indicaram quaisquer conflitos de interesse.
Fontes de financiamento: Não se aplica.
Declaração de contributos de autoria CRediT: JLFS: Conceptualização; Metodologia; Investigação; Redação — Rascunho Original; Visualização. PNF: Conceptualização; Metodologia; Redação — Rascunho Original; Redação — Revisão & Edição; Supervisão; Gestão de Projeto. ADGT: Conceptualização; Metodologia; Investigação; Redação — Rascunho Original; Visualização. SJSOS: Conceptualização; Metodologia; Investigação; Redação — Rascunho Original; Visualização. DGND: Conceptualização; Metodologia; Investigação; Redação — Rascunho Original; Visualização.
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